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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ah! Esses dirigentes..

O presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, não acompanhou a seleção aos Estados Unidos, onde disputará amistosos e desfalcará times brasileiros no andamento do Brasileirão.

Se viajar, provavelmente não volta.



Este mesmo sujeito anunciou, quase ao mesmo tempo, o calendário do futebol brasileiro para 2016 e o possível fim do horário de 22h nos jogos do campeonato.

Enquanto condena nossos clubes a passarem quase um mês desfalcados durante as principais competições do país, faz uma média, em prévio acordo com a emissora que detém os direitos de transmissão do futebol, com a galera.

O fim desse horário indecente do futebol no Brasil era uma reivindicação antiga de quem, ao menos, tem o tal do polegar opositor. A mudança anteciparia em 20 minutos o início das partidas. Às 21h40, ficou melhor para você?

Del Nero não veio do nada, ele é produto de outros tantos dirigentes de clubes e federações. Como Eurico Miranda, que acredita na possibilidade de ampliar o número de clubes na Série A do ano que vem. O Estatuto do Torcedor impede que isso aconteça. Não passa de galhofa.

Mas curioso mesmo é o caso do Cruzeiro. O presidente Gilvan vai a público demitir Luxemburgo, após ter demitido Marcelo Oliveira, que o eliminou da Copa do Brasil, sem confessar nenhum erro.

Jogou a culpa na imprensa e na torcida. Dá para levar a sério?

Este sujeito vota na federação, que vota na CBF. É o começo da cadeia alimentar no futebol brasileiro. Onde um engole o outro e todos engolem o nosso futebol.

Os nossos dirigentes mantêm negócios em paraísos fiscais, vivendo no paraíso penal, para ricos, brancos e bem vestidos, que é o Brasil. Prisão aqui é só para garotos indo à praia, coincidentemente todos negros e pobres.


Gol da Alemanha.


Valeu,


Bruno Porpetta

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Castigo a galope

A demissão de treinadores no Brasil é tão corriqueira que merece um “demissiômetro” no Largo da Carioca para contar quantos já caíram ao longo do ano.



Este último final de semana foi exemplar dos efeitos dessa “cultura”. O Inter foi atropelado pelo Grêmio após demitir, sem maiores explicações, o treinador Diego Aguirre.

Ao mesmo tempo, Ricardo Gomes viu o Botafogo perder para o Santa Cruz. Uma derrota que lhe tirou a liderança da série B, posição onde se encontrava o alvinegro quando demitiu, sem muitas explicações, Renê Simões.

Por outro lado, Cristóvão não foi demitido do Flamengo. Mas convive com a eterna ameaça de demissão pela imprensa e parte da torcida. A sorte dele é que, pelo menos, a direção do clube está com ele.

O time que ataca cada vez mais a cada partida, ao mesmo tempo em que leva gols em lances de bola parada em jogos seguidos, é passível de críticas. Nem perto da sacanagem orquestrada contra o treinador rubro-negro. Não à toa, ele pode dizer que é vítima de racismo.

Renê Simões perdeu o emprego após cair na Copa do Brasil para um time da primeira divisão. À frente, por exemplo, do Vasco, campeão carioca.

Era o líder da série B, coisa que no início do ano era improvável dizer que aconteceria. Aliás, o Botafogo era, a princípio, o patinho feio, inclusive, do Carioca.

Diego Aguirre pecou por assumir a Libertadores como a sua competição, largando o Brasileiro. Mas foi vítima de uma covardia por parte da direção do Inter, que o demitiu em busca de um “fato novo”. Dito e feito, ganhou uma mão cheia de “fatos novos”, justamente, do Grêmio.


Enfim, essa dança das cadeiras entre treinadores só serve a empresários, que ganham comissões a cada contrato. Para o futebol, não tem a menor serventia.


Valeu,

Bruno Porpetta

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Nada de novo

O mundo do futebol coleciona casos de racismo. Em todo o planeta, também no Brasil, não só no Rio Grande do Sul. O caso Aranha é o início da contagem regressiva para o próximo.

A única chance que temos para começar a desatar esses nós é, sem qualquer delírio de soluções imediatas, punir exemplarmente os envolvidos. A garota, os outros e, também, o Grêmio.



A garota e os outros estúpidos da arquibancada por razões escancaradas. Foram flagrados pela TV. Já o tricolor gaúcho, por mais que tenha tomado posturas aparentemente enérgicas, está envolvido pela terceira vez, nos últimos anos, em casos de racismo.

Chegou a hora desses idiotas verem o tamanho do estrago que causam, tanto na vida dos negros e negras do nosso povo, como para o próprio clube. Conviver no sistema carcerário brasileiro, um verdadeiro depósito de negros e pobres, pode fazê-los pensar um bocado.

A exclusão do Grêmio na Copa do Brasil é pouco. É preciso limitar o número de ingressos à metade da capacidade de um estádio distante de Porto Alegre, além de uma pesada multa. Ou seja, doer no bolso do clube. Os outros clubes, rapidamente, se precaveriam.

Até porque o racismo não é gremista, nem só no futebol, é uma questão nacional. O sujeito enlatado no trem, em sua maioria, é negro. Não é à toa.

O Brasil é um país racista. Os negros foram jogados para os cantos das cidades, recebem menos, trabalham mais. Qualquer semelhança com o século retrasado não é mera coincidência.

Os negros e negras do nosso povo não fazem parte da elite, que andaram dizendo por aí que não existe. Nem esquerda, nem direita, nem branco, nem negro... mas nada que umas tuitadas não possam mudar, de repente.


Do gremista Humberto Gessinger: “Nessa terra de gigantes, eu sei, já ouvimos tudo isso antes.”.



Valeu,

Bruno Porpetta

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Até daqui a alguns meses...

A cena da garota gritando "macaco" atrás do gol do Aranha, no jogo entre Grêmio e Santos, pela Copa do Brasil, na Arena Grêmio, é chocante, repugnante, merece todo nosso grito. Nenhum silêncio diante do racismo!

O Grêmio já protagonizou outros casos de racismo. Dirigentes, jogadores e torcedores já foram denunciados. Não na polícia, mas pela imprensa.

Bom que se diga, o Grêmio passa longe de ser o único clube a "praticar" o racismo. Não podemos isolar o clube de um comportamento comum - e abjeto - da nossa sociedade.



Porém, cabe observar que, em nenhum caso, houve punição mais severa. O racismo é uma agressão, tal como a violência que encerrou o Brasileirão do ano passado em Joinville, só que mais covarde. Em geral, é praticada contra uma única pessoa, por vários imbecis.

O racismo é uma demonstração nojenta de que não nos livramos da cultura escravagista que foi construindo cidades em nosso país brancas no meio e negras nos cantos. A garota gremista é só mais uma no meio de tantos que, inclusive, estavam próximos a ela, imitando macacos.

Há uma sede punitiva contra a garota. Resolve?

Em geral, os comentários contra a garota são reacionários, mesquinhos, preconceituosos. Enfim, um retrato fiel do mergulho que nossa sociedade deu em um tanque de fezes. Tais comentários revelam que o sujeito crítico das redes sociais é bastante nivelado por baixo.

Mas o que gostaria de tratar é, diante do que já foi apresentado, sobre o início da contagem regressiva para o próximo caso de racismo no futebol. Sendo específico, porque se abrir o leque terei que largar o banco para me dedicar somente aos posts sobre racismo.

Só neste ano, dois jogadores do Santos foram vítimas de racismo. Arouca, no Paulista, e agora Aranha. Ainda teve o caso do Tinga, no Cruzeiro. O torcedor do Bayern de Munique, na Alemanha.

Eles não acabam porque quem investiga é racista, quem julga é racista, quem executa a pena é racista, quem torce é racista, quem joga é racista, quem apita é racista, quem dirige o futebol é racista. No meio de tudo isso, o negro e sua impotência diante de tamanha "torcida adversária".

Por isso, geralmente, ele não leva adiante. Não vai às últimas consequências.

Se fosse, a garota estaria na cadeia, junto com os outros que imitaram macacos, Antônio Carlos não daria sequer um pito no futebol brasileiro, entre outros exemplos.

Enquanto ninguém punido, nada avança. Mas só a punição é insuficiente, nós temos é que enterrar a escravidão de uma vez por todas. Na escola, na família, na igreja.

Estamos bem longe de uma solução, mas bem próximos do próximo caso de racismo no futebol.


Valeu,

Bruno Porpetta

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Sim, é só porque ele é preto!

Em tempos de reflexão sobre as lições deixadas pelos sete gols alemães na Copa, já se falou muita bobagem, mas também muita coisa relevante.

Dentre as maiores bobagens, a entidade que diz que administra o nosso futebol - a tal da CBF - responde por 96% delas. Falam e fazem, por supuesto.

Um tanto vem da imprensa, outro tanto dos treinadores - dentre eles o "pofexô" -, algum tiquinho da torcida. Ou seja, todo mundo já falou alguma bobagem de lá pra cá.



Dentre as coisas relevantes, uma delas foi Tite, que preferiu estudar mais para melhorar e chegar à Europa. O "mais cotado" antes da escolha de Dunga, quer chegar ao continente europeu, em um clube grande, porque lá é o exemplo. Pode quebrar a cara, mas não custa tentar.

Outro é Cuca, que parece ter se livrado da "uruca" de não ganhar nada. Já tem uma Libertadores no currículo, mas alguém com uma Libertadores não poderia ir pra China. Vai aprender o quê lá? Mandarim?

Muricy é outro que parece, pelo menos, estar atento às lições que o mundo lhe dá. Depois da surra que levou do Barcelona, pelo Santos, ele vem procurando mudar seus conceitos, tentando manter seu time mais com a bola nos pés e menos sobrevoando as cabeças. Não dá pra dizer que ele não está tentando.

O problema é que, em todos os aspectos positivos que o futebol brasileiro vem tentando se arrumar, sempre está associado um treinador branco, um visionário.

É nesta invisibilidade dirigida que, muitas vezes, deixamos passar batido o que tem realmente impressionado neste Brasil pós-goleada. Quem parece ter entendido tudo, até porque não precisou da goleada para aprender, já via tudo isso rolando aqui mesmo, é um negro.

Cristóvão Borges assumiu uma bucha no Vasco, logo após o AVC de Ricardo Gomes, que poucos teriam peito pra assumir. Levou o time na Libertadores e, não fosse o gol perdido pelo Diego Souza, estaria, no mínimo, nas semifinais da competição com um time bom, mas que não passava muito disso.

Algum tempo depois, sucumbiu à pressão da torcida vascaína e saiu. Não saiu correndo atrás de outro clube dias depois. Foi pra sua casa estudar.

Enquanto os jornalistas estão preocupados em saber quantas milhas os treinadores andaram acumulando em seus cartões-fidelidade de companhias aéreas indo para a Europa, Cristóvão diz ao blog do PVC que viajou pouco, suas reflexões vem de leitura e observação de algumas coisas bem mais próximas. Sampaoli, no tempo de Universidad do Chile, foi um dos alvos de seus olhares.



Depois de uma passagem pelo Bahia, em que conseguiu fazer um time sofrível permanecer na primeira divisão, Cristóvão tem uma grande chance no clube que o projetou como jogador. O Fluminense.

Nesta história de valorizar o passe como um fundamento sem igual na arte de ganhar bem os jogos, Cristóvão faz do Fluminense o time mais bonito de se ver. E ganha!

Mas sabe porque se pensa em Tite, se fala em Muricy e se traz o Dunga sempre? Pra além da panelinha da cúpula da CBF, é porque o Cristóvão é negro! Por isso o nome dele sequer aparece, mesmo que o seu trabalho venha dando frutos.

É simples. Somos um país racista, imagina a CBF?

E não acho que esta era a hora dele, nem a ocasião. Ele precisa de um título polpudo pra chamar de seu, além disso entrar na seleção agora significa baixar a cabeça pra essa gente, coisa que ele nunca deve fazer.

Não é preciso transpor simplesmente o esquema alemão para cá, basta ocupar bem os espaços. Isto faz muita diferença no futebol.

A lição alemã passa mais pela organização do futebol, que é justamente quem não quer aprender nada.

E tenho dito...


Valeu,

Bruno Porpetta

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Barbosa, descanse em paz

Não dá pra amaciar. A goleada alemã sobre nossas cabeças foi a pior tragédia da história do futebol brasileiro.

Sem dúvida, o trauma de 50 ainda tinha peso. Nós temíamos perder a final da Copa no Maracanã. A diferença é simples: em 50, tínhamos time para ir à final. Inclusive, chegamos à final após golear a Suécia por 7 a 1.



O time que cercava Neymar não era o camarão na empada. Até podia chegar à final, mas chegaria com a camisa tão somente. Os alemães acabaram dando uma lição: basta desta corja que dirige o futebol brasileiro! Não basta dizer fora fulano ou beltrano, todos tem que sair!

Era visível que Felipão estava absolutamente perdido. Perdeu o controle, perdeu a razão, perdeu o tempo. Tempo este que agora será contado em gols da Alemanha. Não será incrível que passemos a calcular quantos gols da Alemanha levamos para ir de Madureira à Central.

Só que Felipão não foi parar lá à toa. Alguém o contratou. Contratou por que queria um centroavante fixo na área? Não, porque tinha medo de chegar à Copa com um treinador sem experiência, coincidentemente, contratado pela mesma turma. Só variaram as moscas.

Se havia algo para nos envergonhar nesta Copa, que foi fantástica, é buscar um hexa sem a bola passar no meio-campo, acreditar que “famílias” formam seleções, assistir a esta turma da CBF esculachar o futebol brasileiro.

Temos saudades dos nossos clubes no Brasileirão, mas sabemos que a Copa é um oásis de bom futebol nos nossos gramados. Não formamos mais craques aos montes. A seleção não está tão distante do que temos de melhor hoje.

Esta tragédia no Mineirão fez o Maracanazo ficar muito pequeno. Deu saudade do nosso futebol. Deu saudade de Barbosa que, feliz e finalmente, está absolvido.


Assim enterramos, de uma vez, a derrota em 50.


Valeu,

Bruno Porpetta

sábado, 9 de novembro de 2013

Touré? Touché!

Yayá Touré, meio-campo da seleção da Costa do Marfim e do Manchester City, pertenceu ao apogeu do Barcelona. Formou durante três temporadas (entre 2007 e 2010) aquele meio mágico do time catalão, com Xavi e Iniesta.

Ao começar a perder espaço no time para Busquets, procurou outro time para jogar. Hoje, está no milionário azul da cidade de Manchester, na Inglaterra.



Tem jogado muito, diga-se de passagem.

Aquele período na Catalunha lhe deu projeção. É um dos mais conhecidos jogadores marfinenses no mundo, estando atrás apenas de Didier Drogba.

Pela Liga dos Campeões da Europa deste ano, foi à Moscou enfrentar o CSKA. O City venceu por 2 a 1, com dois gols de Aguero.

Dentro de campo, os jogadores estão tão concentrados no jogo que, muitas vezes, não prestam atenção no que vem das arquibancadas. Desde que a torcida não se faça notar por algo realmente diferente do habitual.

A torcida do CSKA se fez notar. E da pior forma possível. Ou melhor, da forma mais recorrente possível na Rússia, sede da Copa do Mundo em 2018.

Toda vez que Yayá Touré tocava na bola, um ensurdecedor urro vinha das arquibancadas. Uma representação tosca de macacos urrando.

Não, amigos! Não é uma suspeita, ou uma confusão do jogador. Era isso mesmo. Toda vez que ele pegava na bola, a torcida inteira imitava um macaco.

A Rússia tem se tornado um centro mundial da irracionalidade, do preconceito, da patifaria autoritária. Tudo isto com anuência estatal. Ou melhor, digamos que o Estado russo cumpra o papel de maior propulsor disso.

Os casos de racismo no futebol (para ficar no que é mais notório, ultimamente) russo são frequentes. Existe até um clube que é conhecido por não aceitar negros, sob o pretexto da não aceitação da torcida: o Zenit.

O brasileiro Hulk, nordestino de olhos verdes, que pode até correr para outra autodefinição racial (embora não se possa negar sua descendência negra), sofreu logo que chegou por lá. Até por companheiros de time.

No Anzhi, Roberto Carlos (que também é negro, embora não conte pra ninguém) sofreu racismo. A foto abaixo é bastante elucidativa.



Mas quem disse que é só racismo? A homofobia também é gritante! A Parada Gay em Moscou foi proibida! Vários militantes pela livre expressão sexual tem que se deslocar para São Paulo para poderem ser ouvidos.

Resumindo, o que acontece descaradamente na Rússia é escandaloso, aviltante, revoltante.

Este autoritarismo russo descende do czarismo, também perpassa os tempos de "socialismo real".

Por outro lado, existe uma campanha da FIFA contra o racismo.

Em geral, placas à beira do campo, faixas trazidas pelos jogadores, entre outras "ações" com a inscrição "Diga não ao racismo" (Say no to racism) são frequentes nos jogos.

Punição? Nenhuma!

Quando perguntado, Joseph Blatter diz que os casos de racismo dentro do campo são circunstâncias de jogo, que devem ser encerrados no apito final.



O racismo não é uma falta para conter contra-ataques! Esta sim é uma circunstância de jogo. E esta é punível com cartão. O racismo, nem isso.

Touré, além de pedir punição ao CSKA, propõe um boicote negro à Copa do Mundo de 2018. Que seleções africanas e jogadores negros ao redor do mundo não participem de uma Copa em um país racista.

A proposta é muito boa, embora pouco viável.

Ela já começa com um furo. Ninguém disse a Touré, mas a Rússia não é o único país racista do mundo.

A sede da próxima Copa, num país bastante conhecido por nós, chamado Brasil, também sofre com a questão. Talvez o que falte à Rússia é uma mídia tão determinada a jogar o racismo para debaixo do tapete. O tapete da "democracia racial".

Falta um longo papo entre os novos czares russos e Ali Kamel.

Ao menos, a proposta provoca reações imediatas da FIFA, preocupada em não prejudicar seu principal produto: a Copa.

Blatter já admitiu analisar a questão.

Por outro lado, é preciso entender que o racismo no futebol não pode ser tratado de dentro do campo para fora, mas sim o contrário.

Nenhum jogador aprendeu a ser racista dentro do campo. E a arquibancada é o local onde mais ele se manifesta nos estádios.

Como a legislação varia de país para país, o racismo pode ser crime em alguns e não em outros. Portanto, a FIFA deve tomar para si a resolução do problema no futebol.

Os clubes e torcidas só entendem um tipo de linguagem: a punição.

Não que eu seja um punitivista que acredite que ela solucione o problema, mas ao menos pode ser um símbolo que mostre ao mundo o quão estúpido é o racismo.

Mas voltando à punição, ela deve ser pecuniária e esportiva, sem exclusão de uma ou de outra.

Pode-se até pensar em punições gradativas, de acordo com a reincidência, mas o patamar mínimo já deve ser bastante pesado.

Por exemplo: comecemos com 30% da folha salarial da equipe em multa (podendo ser regressivo aos jogadores, por parte do clube, mas apenas em segunda ordem), perda de cinco mandos de campo em competições organizadas pela mesma entidade do jogo em questão, além da perda dos pontos da partida.

Em caso de reincidência, 50% da folha salarial, 10 mandos de campo e seis pontos perdidos.

Na terceira vez, multa no valor integral da folha salarial da equipe, perda de 15 mandos de campo e exclusão da competição, com rebaixamento, se for o caso.

Esta é apenas uma proposta, sujeita à críticas, sugestões, etc.

Ainda mais porque os negros teriam mais legitimidade do que eu para discutí-la e apresentá-la.

De qualquer forma, o debate proposto por Touré é fundamental.

Primeiro, porque o racismo ganhou proporções ainda mais absurdas de uns tempos para cá. Segundo, porque a campanha da FIFA contra o racismo está comprovadamente desmascarada como uma farsa contra o povo negro.

O que acham?


Valeu,

Bruno Porpetta

quarta-feira, 24 de julho de 2013

De 62 a 68, em 51 anos (o Brasil de Amarildo a Amarildo)

Pelé saía de campo lesionado, no empate em 0 a 0 entre Brasil e Tchecoslováquia.

Diante de tal tragédia, a alternativa mais viável para Aymoré Moreira era colocar o ataque do Botafogo pra jogar. Que parceiro faria melhor companhia à Garrincha senão seu companheiro Amarildo?



Aquele time, já um pouco envelhecido, contava com o agora saudoso Djalma Santos (ao qual este blog se curva em reverência), além do infernal Garrincha e o "Possesso" Amarildo, mais um grande artilheiro do nosso futebol, mais um que deve ao Anjo das Pernas Tortas seu contrato para jogar na Europa.

Amarildo editou, junto a Garrincha, belíssimas páginas da história do Botafogo e da seleção brasileira. Páginas que inspiraram amantes do futebol, nos estádios e nos cartórios.

Não é de hoje que jogadores de futebol eternizam seus nomes nos filhos dos outros. As homenagens feitas a craques no registro de crianças recém-nascidas é notória e antiga.

Em uma delas, em 1966, nasceu Amarildo.



Amarildo Dias de Souza era um pedreiro. De tanto carregar pedras, assim como craque alvinegro, também ganhou um apelido. Era chamado de Boi.

Cresceu na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Que os bairros de São Conrado e Gávea fingem não existir. Mas ela existe.

Tal como as demais favelas, cresceu desordenadamente, sem planejamento, sem água, sem luz, sem esgoto. Se tornou um depósito de gente descartada do "asfalto". Gente invisível, como se não fossem gente.

Nesta ausência do básico, é duro não se revoltar. Nesta revolta sem perspectiva, o crime aponta uma saída fácil, às vezes única. Assim, aos 17 anos, o jovem Amarildo registra sua única passagem policial, por furto.

A característica de pé-de-boi, que lhe rendeu o apelido, impediu que Amarildo trilhasse este caminho. Não fosse por isso, já estaria morto há muito tempo. O crime só compensa a curto prazo, até porque o prazo é necessariamente curto pra quem vive dele.

Entre a vitória da seleção do Possesso e o nascimento do Boi, sob a "iminente ameaça comunista", o país iniciou-se no capítulo mais vergonhoso de sua história. Em 64 os militares tomaram o poder e levaram consigo nossa liberdade. O Amarildo da Rocinha nasce em um Brasil proibido de pensar.



Com apenas dois anos de idade, Amarildo ainda não tem consciência, mas seu país mergulha nos piores anos desta excrescência que foi a ditadura militar. O Ato Institucional nº5 foi editado para liberar a tortura, o assassinato.

O jovem Amarildo deve ter visto pela TV, na telinha da Globo, milhares de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, comemorando o aniversário da cidade.

Mal sabia ele que, na verdade, lutavam por democracia no Brasil. Isto, a Globo não contou a ele.

Amarildo, com 23 anos, pela primeira vez votou para Presidente da República. Acreditou viver em um país democrático, retornando às urnas nos anos pares que se seguiram para cumprir o único direito que lhe foi concedido, já que todos os outros lhe eram sistematicamente negados.

Talvez tenham lhe ensinado que o Brasil foi "descoberto" por Cabral, até porque o massacre dos povos originários não permitiu que estes contassem sua história. E a vida (ou a "democracia"), lhe colocava diante de outro Cabral, mais de 500 anos depois.

Pela TV, lhe diziam das maravilhas que transformavam as favelas em territórios pacificados, longe dos crimes que Amarildo se recusou a prosseguir cometendo. Ele, que nasceu no país proibido de pensar, mais uma vez acreditou no que a TV lhe mostrava.

O que talvez não tenham lhe dito é que, para favelados como ele, só havia uma paz possível. A paz do porrete. O Estado, como foi por toda a sua vida, só se fazia presente através da polícia. Ainda assim, para Amarildo, a esperança de dias melhores.



O Boi acreditava que, carregando pedras, construiria uma vida melhor.

Assim, viu a seleção brasileira vencer, sem o Possesso que lhe dava o nome, mais três títulos mundiais. Viu a urna de votação, e ali a possibilidade de escolher qual país ele queria. Viu a UPP chegar à favela com status de heróis da liberdade. Viu o povo voltando às ruas para reivindicar direitos.

Depois disso, não viu mais nada.

No estado de exceção criado por Cabral, foi levado pelos policiais - os mesmos que resgataram sua esperança - para dentro do posto de comando da UPP da Rocinha, sem mais nem menos. Nunca mais foi visto.

Tal como naqueles anos, em que Amarildo ainda era uma criança, e pessoas desapareciam nas mãos sujas de sangue dos militares, chegou a sua hora.

Não teve tempo sequer de ver Cabral editar o "novo AI-5", retomando uma vergonhosa ditadura que seu partido disse um dia combater. Nem mesmo pedir perdão por eventuais pecados ao Papa.

Nem foi digitalmente incluído, para poder, pelo Twitter, dizer ao Papa o que a PM do Rio andava publicando por lá. Talvez o Papa perdoasse, inclusive, os pecados da PM. Não houve tempo.

Tal como Djalma Santos, Amarildo não está entre nós. Que Deus os tenha! Não é não, Papa Chico?

Ao menos Djalma terá um velório.

Amarildo, que viveu sem luz, sem água, sem esgoto, mas com orgulho, não teve escolha. Mesmo ao morrer, não tem direito a seu próprio corpo, nem à verdade, nada!

Sua família e sua favela exigem saber, mas continuam sem respostas. São recebidos a balas e bombas no Leblon.



O que o governo Cabral e a PM do Rio não querem dizer, nem Aymoré Moreira dá jeito.

E agora? Sem Pelé! Cadê o Amarildo?


Valeu,

Bruno Porpetta


N.B.: A homenagem ao Possesso é ficcional, assim como os programas de TV que ele por ventura assistiu durante a vida. Gostaríamos muito de poder perguntar ao próprio sobre isto. Pode ser, Cabral?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vergonha a portas fechadas

No último domingo, Flamengo e Grêmio enfrentaram-se no Engenhão, pela 25 ª rodada do Campeonato Brasileiro.

O empate por 1 a 1 frustrou as pretensões do Grêmio em aproximar-se dos líderes, mostrou um Flamengo, ao menos, lutando pela permanência na primeira divisão, com um segundo tempo aguerrido, mas no fim também não foi um grande resultado para o rubro-negro.

Até aí, tudo normal.



O "destaque" da partida aconteceu antes mesmo dela começar. O dirigente gremista Paulo Pelaipe (ex-presidente e atual diretor executivo de futebol), ao ser impedido de entrar no gramado, alertado pelo segurança que a cota de dirigentes estava completa, foi acusado de insultos racistas contra o mesmo.

Ambos foram levados à sala do JECRIM (Juizado Especial Criminal) dentro do estádio e, de repente, as portas foram fechadas e a imprensa impedida de entrar.

Saíram de lá sem denúncia, sem crime, sem nada. Pelaipe assistiu normalmente ao jogo e sobre o segurança, nenhuma notícia a mais.

Não é de hoje que o Grêmio se envolve em casos de racismo. Da última vez, foi em um jogo contra o Cruzeiro pela Libertadores. Leia mais no link: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=2345&id_coluna=12&sms_ss=blogger&at_xt=4d587acf91540858%2C0

Na época, os dirigentes gremistas foram muito enfáticos na defesa de Máxi Lopez. O comportamento de Pelaipe no Engenhão deixa evidente o porquê.

Vocês podem até dizer: "Mas não houve denúncia! É leviano acusá-lo de racismo!"

Tudo bem, até porque é preciso garantir sempre o contraditório, além de presumir a inocência.

Ao mesmo tempo, conhecemos bem o perfil dos dirigentes de futebol no Brasil. Além de arrogantes, prepotentes, donos de si e do mundo todo, são, quase em sua totalidade, brancos.

Não é difícil pensar que onde há fumaça, há fogo.

Para que Pelaipe tenha sido detido naquele momento, sabe-se que ele não ofereceu flores ao segurança. O problema maior é o que não se sabe.

O que aconteceu dentro da sala do JECRIM, a portas fechadas, é a parte da história que não teremos acesso. Pode ter sido qualquer coisa.

Lamenta-se somente que, em flagrante caso de racismo, a vítima não tenha prosseguido com a denúncia. Pois haverão outros dirigentes, outros estádios, outros jogos, outros seguranças negros, e outros casos de racismo, na esperança de outros acordos a portas fechadas.

Para não pegar muito pesado, digamos que este caso foi deseducativo.


Valeu,

Bruno Porpetta