Quando foi criado o regulamento que prevê como critério de desempate os gols marcados fora de casa, se imaginou um jogo mais solto, com times visitantes não se limitando a simplesmente evitar a derrota.
Pois bem, isso foi lá atrás. O que temos visto hoje em dia é outra coisa.
E nossos torcedores ficam assim
São os times da casa que vibram ao não levar gols em casa. Às vezes, um 0 a 0 é mais comemorado que um 3 a 2 a favor do time da casa.
Do ponto de vista do resultado, meramente, tanto faz ganhar por 1 a 0 ou 3 a 1 em casa. No fim das contas, o mínimo para a sua eliminação é uma derrota por 2 a 0 fora.
Mas fazer 3 a 1 é bem mais difícil que cravar 1 a 0. Por isso o placar de 1 a 0 é supervalorizado.
Mas perceberam como ficou chato esse tipo de disputa com este regulamento?
O que era um estímulo ao gol, se tornou uma ode à preguiça ofensiva.
E assim, nosso futebol anda para trás. Até dentro do campo...
A seleção brasileira perdeu o amistoso com a Alemanha por 3 a 2.
Durante a semana, parte da imprensa tratava o jogo como "decisivo" para Mano. Ou seja, em caso de derrota, sua batata poderia assar. Isso porque não vencemos nenhum clássico.
A demissão de Mano é coisa de quem entende pouco de bola
Pois bem, vejamos o que estava em jogo. Jogaríamos contra a Alemanha, em Stuttgart. O escrete germânico já tem três títulos mundiais, e ficou em terceiro na última (campanha muito melhor que a do Brasil). Fora isso, o time que jogou hoje é a base daquele da Copa da África.
E ainda alguém vai querer me convencer que ganhar era obrigação?
Estamos refazendo o time. Isso leva tempo. Mas ficou evidente que André Santos não é lateral-esquerdo para a seleção.
Qualquer imposição de vitória não somente é uma pressão desnecessária. É uma avaliação de quem entende pouco do esporte bretão.
E no nosso jornalismo esportivo, vários deixam a desejar.
Fred ameaça sair do Fluminense, caso não se sinta seguro em morar no Rio. Após ser, reiteradamente, ameaçado por torcedores do clube contrariados com a frequência frenética do jogador na noite carioca.
É bom se perguntar. Se você, pessoa física mortal, é visto bebendo por aí nas noites do meio da semana, e desenvolve bem seu trabalho apesar disso, seria perseguido por seu chefe, ou colegas de trabalho? Ou pior, por qualquer transeunte com interesse direto no seu trabalho?
Os jogadores de futebol, trabalhadores como nós, sofrem este tipo de perseguição.
A começar pela imprensa esportiva, que adora um babado, o controle da vida social dos craques é quase um dever cívico para com o clube. Ou, segundo a mesma, o interesse é dos torcedores do clube.
Os organizados que ameaçam
É bom que se diga. Existe uma parte louvável do jornalismo esportivo que se interessa única e exclusivamente com o campo. Possuem até muitas informações a respeito da privacidade dos trabalhadores da bola, mas as colocam em segundo plano nas suas análises.
Mas há uma grande parte que quer mais é ver o circo pegar fogo. Desde acompanhar romances, passando por jantares, até chegar às noitadas e seus possíveis excessos. Até indicam locais onde a mesma pessoa física mortal pode encontrá-los com mais facilidade.
E os torcedores mais desprovidos de bom senso "policiam" os jogadores. Mas o que ocorreu com Fred excedeu qualquer limite.
Se o rendimento de Fred não convencer (o que não era o caso, visto que ele havia marcado na última partida), diante dos abusos de consumo de álcool e parcas noites de sono, é outra discussão. E ainda assim, uma discussão que envolve diretoria, comissão técnica e o jogador. À torcida é reservado o espaço das arquibancadas para vaiá-lo, xingá-lo e afins.
O restante, é problema dele.
E que ninguém pense que este tipo de conduta é exclusividade da torcida do Fluminense. É prática recorrente em todos os clubes no Brasil.
Fica outra questão: os tais "torcedores" também não tinham que acordar cedo para trabalhar no dia seguinte?
Ontem, ao (re)assistir o filme Laranja Mecânica, eu e meu amigo vascaíno Diego relembramos a seleção holandesa de 1974.
Além das óbvias associações feitas pela cor laranja dos uniformes do time holandês, conjecturamos sobre a inovação tática do escrete de Rinus Michels, chamado de Futebol Total, onde nenhum jogador guardava posição.
O giro constante dos jogadores enlouqueceu, inclusive, o Brasil de Zagallo. O mesmo jogador que participava da marcação, era visto armando o jogo e concluindo a gol.
Este esquema de jogo demandava grande aplicação tática dos jogadores, além de posicionamento correto e uma disposição física impressionante.
Nossa conversa girou em torno dos possíveis porquês da origem do apelido. Qual era a palavra que carregava o símbolo? Laranja ou mecânica?
Em tempos onde o debate sobre a contradição entre futebol-arte e futebol-força ganhava vultuosos contornos, o apelido Laranja Mecânica se refere à padronização do futebol, tal como a proposta do Ministro do Interior da Inglaterra, que aprovou um "tratamento" para o comportamento criminoso, eliminando a espontaneidade do indivíduo diante da possibilidade de transgressão moral e/ou legal?
Neste caso, a palavra mecânica ganha destaque.
Em 1974, a chegada da Holanda à sua primeira final de Copa, poderia representar o início do fim do futebol-arte, que se "confirmou" em 1982, sobreposta por uma lógica de futebol baseada na preparação física e tática dos times.
Era mais ou menos isso, mas mudava o tempo todo durante o jogo.
Nos dois casos, nos referimos à derrotas brasileiras traumáticas, onde a beleza do nosso futebol foi soterrada pelos esquemas táticos europeus.
Mas então, porque 74 não dói tanto como 82?
Aí entraram em campo as reflexões sobre o destaque da palavra laranja no apelido.
O tal esquema inovador de Michels seria possível em outra equipe? Um time que não tivesse nomes como Ruud Krol, Rob Rensenbrink, Johnny Rep, Johan Neeskens, os gêmeos Rene e Willy Van de Kerkhof e, principalmente, Johan Cruijff?
O que ameniza a dor da perda de 74 pelo Brasil, e sua seleção de muita qualidade, porém absolutamente burocrática durante a Copa, é que a Holanda tinha um time genial!
Em sendo genial, era possível inventar na disposição tática da equipe, pois seus jogadores eram capazes de cumprir todas as funções que o tal Futebol Total exigia.
Óbvio que a concepção de futebol apresentada por Michels era bastante interessante, mas o fundamental ali eram os jogadores. A Holanda tinha um grande time, e atropelou a burocracia brasileira sem dó nem piedade!
Não fossem eles, e a tal "mecanicidade" tática da equipe seria um rascunho no papel que o campo não absorveria.
E sob este aspecto, a seleção fica mais laranja do que mecânica.
Em 82, onde a dicotomia força e arte contou muitos pontos para a primeira, nossa seleção perdeu para a Itália jogando o fino da bola. Só voltamos a vencer em 94, mas de forma chata. E porque, muitas vezes, exaltamos mais o time de Zico, Sócrates, Falcão & Cia.? Porque gostamos da beleza! Temos isso no nosso sangue, apesar das insistentes tentativas de transfusão que os tecnocratas da bola gostariam de fazer.
Seguiremos discutindo, uma discussão tão eterna quanto o filme. Aliás, que filme!
Passado mais de um terço de campeonato, já é possível tentar dar uma de gato-mestre, e prever quem disputará o título do Brasileirão este ano.
Na modesta opinião deste que vos escreve, cada rodada vem mostrando que - no fundo, no fundo - são três.
O primeiro é o primeiro! O Corinthians lidera o campeonato, e não à toa. Tem um time que, se não está entre os maiores esquadrões do novo século, também não deixa nada a desejar ao que se espera de um time campeão.
Tite discursa sobre o equilíbrio e a derrotabilidade
Jogadores de qualidade (alguns ainda a estrear), um forte esquema de marcação e muita velocidade nas saídas para o ataque. O treinador-filósofo Tite nunca empolgou, mas parece ao menos ter encontrado boas saídas para as limitações do elenco alvinegro e, graças a um começo arrasador, pode manter-se no topo.
O segundo é o time campeão estadual que não convencia, com o craque que não convencia, sem zagueiro, lateral-esquerdo e centroavante.
O craque agora convence, consequentemente, o time também convence, a solução temporária para a zaga estava o tempo todo ali, sentado no canto do banco, chegou Júnior César para o lado esquerdo e o centroavante... Bem, o centroavante, depois de infindáveis novelas, não chegou. Coube a Deivid que - diga-se - nunca foi centroavante, vestir a nove rubronegra e evoluir com o time, resolvendo, até o momento, a tal ausência do homem de área.
Até agora, ninguém freou o bonde...
Fora a invencibilidade e o jogo titânico contra o Santos. Afinal de contas, o Flamengo é o Flamengo!
O terceiro, parece que não tá nem aí pra nada!
Já tem seu troféu nacional este ano, já está na Libertadores, e joga sem grandes responsabilidades. Mas supera toda e qualquer desconfiança com relação à idade avançada dos seus principais jogadores do meio-campo (Juninho e Felipe), pois além de revezá-los entre si, os misturam a alguns jogadores que tem feito a diferença.
E eles querem ainda mais...
Quando não é Eder Luiz em desabalada carreira pelos lados da área, é Diego Souza jogando muito no meio. Se não tem Alecsandro marcando gols, tem Dedé impedindo que eles sejam sofridos. Ou seja, o time é muito bom, tá cheio de moral e não tem muito tempo a perder com G4. O Vasco quer o título!
Se o seu time não apareceu nesta lista, convenhamos, é porque ainda não deu grandes motivos para sua inclusão, né não?
Desde já, agradeço o leitor e amigo Ramon Szermeta, pela lembrança e correção.
Quando afirmei no post "A farra com o nosso dinheiro" que o valor dado à festa da FIFA pelos governos estadual e municipal era maior que o dobro do liberado às cidades atingidas pela chuva na Região Serrana do estado do Rio, errei. Ou me expressei de maneira indevida.
A pergunta que fica: quem faz mais? Eu ou Cabral?
Por quê?
O estado contribuiu com R$ 15 milhões para o sorteio das eliminatórias da Copa, ao passo que liberou R$ 216 milhões para a tragédia das chuvas na serra fluminense.
A questão que ainda nos preocupa é: foram R$ 15 milhões na lata para a festa, que durou apenas um dia, enquanto o montante de R$ 216 milhões é o acumulado em seis meses, segundo relatório do TCE-RJ.
Fazendo uma conta grosseira, são R$ 1,2 milhão por dia (considerando 180 dias).
As cidades ainda passam por inúmeros transtornos por conta das chuvas de janeiro. Até lama na rua ainda se vê.
Acho que o debate passa pelas prioridades do governo estadual, né não?
São R$ 15 milhões para Blatter e Teixeira, e R$ 1,2 milhão para toda a população das cidades atingidas. É de se pensar.