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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Desabafo

Enquanto dava uma zapeada nos canais de TV, parei para assistir a uma entrevista do Deputado Estadual Paulo Ramos (PDT-RJ), recém-eleito para a Câmara dos Deputados em Brasília, para o programa Jogo do Poder, na CNT.

Em um dado momento da entrevista, o âncora do programa o pergunta sobre o papel que o Judiciário vem exercendo na política nacional e, em especial, no Rio de Janeiro, após a prisão do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Eis que Ramos diz algo que, há algum tempo, venho refletindo a respeito. Os chamados "políticos" deixaram de fazer política, ou nas palavras dele "perderam a capacidade de resolver as questões politicamente". Essa perda de capacidade resultou nas constantes provocações ao Judiciário, para resolver essas questões.





Outro trecho da fala de Ramos diz que, após tantas provocações que o alçaram a uma condição de iminência parda do poder, o Judiciário gostou de fazer política.

O Poder Judiciário é o único dos três poderes que, diferentemente do que prega a Constituição Federal de 88, não emana do povo. O único não eleito pelo voto popular. Por si só, isso já faz uma diferença enorme.

Exatamente por não ser eleito é o poder menos poroso às classes sociais mais baixas, formado quase que exclusivamente por brancos oriundos da classe média para cima, com raríssimas exceções que, segundo a crença popular, servem para confirmar a regra.

A seleção para a magistratura é um funil com corte de classe, a medida que o nível de exigência de dedicação e comprometimento para com os estudos é inviável para quem precisa trabalhar para sobreviver, quem tem filhos para criar, etc.

Não basta apenas concluir o curso de Direito, é preciso começar a preparação ainda durante a faculdade, prosseguir estudando após o término e, ainda assim, não é fácil. Cursos preparatórios, tardes em bibliotecas, reclusão para estudos,... Um estilo de vida nada compatível para quem tem contas a pagar ou crianças na escola.

Em geral, passam os garotos que se dedicaram a isso em tempo integral, que tiveram apoio da família para tal sem que isso representasse um prejuízo financeiro aos parentes.

Em uma escala menor, o mesmo vale para o Ministério Público.

Ou seja, além de não eleitos, praticamente todos são oriundos do mesmo estrato social, formados com valores semelhantes, experiências de vida similares que determinam formas de pensar e, principalmente, julgar, parecidas.

Tudo isso para, retomando a fala de Paulo Ramos, dizer que as constantes provocações ao Judiciário e suas peculiaridades são um tiro no pé da democracia.

Ao mesmo tempo que o Judiciário é útil para dirimir questões entre os indivíduos, o mesmo aplicado à política é uma tragédia.

Tornou-se cômodo às forças de oposição, sejam elas quais forem, de direita ou de esquerda, recorrer às instâncias do Judiciário após alguma derrota nas casas legislativas.

Isto porque, se por um lado as Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores se tornaram meros escritórios de legitimidade a serviço das políticas dos Executivos, por outro as oposições suprem as ausências de mobilizações populares com intervenções judiciais.

Que a direita não conte com mobilizações populares e se escore em um Poder essencialmente afeito às suas convicções não chega a ser uma surpresa. Que a esquerda faça isso, é um sacrilégio.

Primeiro porque contribui para esvaziar o sentido da política onde ela deve ser feita, no espaço que reúne a legitimidade necessária, conquistada através do voto, para tal. Segundo porque nos estimula a, cada vez mais, resolver as nossas questões por cima, sem mobilização e com confiança excessiva no funcionamento regular das instituições.

Não cabe a mim fazer um extenso tratado sobre isso. Não tenho tempo, nem intelecto suficiente para a tarefa. Mas se eu puder plantar uma pulga nas orelhas da esquerda, já me dou por satisfeito.

Até porque sou filiado ao PSOL, o campeão brasileiro do chamamento ao Judiciário, e me desespera cada vez que o partido vai ao STF para qualquer coisa.

Às favas com o STF! Às favas com a primeira instância, cujos membros passaram também a se sentirem deuses!


Valeu,

Bruno Porpetta

sábado, 29 de agosto de 2015

Do que nos faz tanta falta

Acabo de assistir ao documentário Democracia em Preto e Branco, de Pedro Asbeg, que retrata o período onde um dos clubes mais populares do país viveu uma experiência tão singular quanto magnífica.

A Democracia Corinthiana foi um elemento importante na popularização do debate sobre a redemocratização do país, no começo da década de 80. O movimento que retirou o futebol do espectro da alienação, colocando-o a serviço da luta política.

Que bonito poder rever muita coisa tão familiar, tão relacionada à minha infância e, por que não dizer, à minha juventude.

Só a narração de Rita Lee já dá a tônica do que seria o filme. A junção, dita por Serginho Groisman, de futebol, política e rock'n roll. O que mais poderia me pertencer tanto?

Durante o filme, tentei com os meus botões fazer alguma relação com os tempos atuais. O que fazer para mudar o futebol? Para mudar a política? Para mudar o rock'n roll, que perdeu tanto da sua rebeldia?



Não se mudará um sem o outro. É preciso reconhecer, primeiramente, que aquela democracia pela qual tanta gente lutou naqueles tempos, se esgotou. Está acomodada a relações econômicas que determinam as políticas. Nossa sociedade está sentada sobre uma montanha ilusória de dinheiro.

As ruas devem se mexer, com as pessoas agindo como placas tectônicas a provocar terremotos na atual estrutura da sociedade. Só isso pode resultar na combinação explosiva que deu origem à Democracia Corinthiana. Um intelectual, um líder operário e um jovem rebelde juntos, em um clube popular, com cabelos ao vento e bola na rede.

E como era bom ver esse time jogar. Um time que marcava no campo do adversário, que jogava com beleza, apesar dos gramados horrorosos. Que a garra de Biro-Biro, vez por outra, aparecia na área para concluir. Tudo o que chamamos hoje de "moderno". Só que muito tempo a frente.

Igualmente, as ruas poderão provocar na juventude o desejo de expressão pelo rock'n roll. Não há nada mais rebelde que o rock. Esta rebeldia deverá se expressar nas letras, nos gritos, na fúria das guitarras.

Encontramos alguns dos elementos possíveis para essa ebulição. Crise, falta de representatividade dos nossos dirigentes, no governo, no Congresso, ou nos clubes. Faltam só dois detalhes.

A ausência de um inimigo nítido, que nos mobilize, além de um instrumento político capaz de organizar esta mobilização, intervir concretamente nas lutas do povo.

Enquanto isso não acontece, só me resta sentir saudade. De um tempo que não volta mais, porque nem deveria voltar mesmo.

Afinal de contas, a história se repete como farsa, depois como tragédia.


Valeu,

Bruno Porpetta

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Ponta esquerda

Na Copa de 82, ficou famoso um personagem humorístico interpretado por Jô Soares chamado Zé da Galera. O dito cujo sacaneava o treinador Telê Santana, colocando em suas falas o bordão “Bota ponta, Telê!”.



Aquela época era o ocaso do ponteiro, que fez parte dos esquemas táticos do futebol até os anos 70. Embora, desde 58, o ponta esquerda já compunha mais a marcação no meio-campo da seleção brasileira. O sujeito em questão era Zagallo.

Com a chegada dos anos 80 e a necessidade de ter mais marcadores atrás da linha de ataque, os pontas começaram a desaparecer.

O futebol foi mudando ao longo do tempo. Por muito tempo, ficou mais chato. Sem os pontas, a linha de fundo virou quase um território proibido. Quase não se pisava por ali.

Aí veio o Barcelona de Guardiola, que por marcar e trocar passes no campo de ataque, percebeu que não podia se confinar na intermediária. Alguém teria que ir à linha de fundo.

Foi o retorno do ponta. Não exatamente com as mesmas funções de antigamente, mas estava lá.

Hoje, os pontas, além de ir à linha de fundo, voltam para marcar a saída dos laterais. Os atacantes abertos pelos lados do campo foram fundamentais para dar mais graça ao futebol atual.

Ou seja, redescobriu-se que o futebol é a arte da ocupação de espaços. Quase um xadrez de peças “malemolentes”. Este é o centro da discussão mais inevitável do momento: as eleições presidenciais.

No segundo turno, cada um correu para a ponta do ataque onde se sentiu mais à vontade para jogar. Dilma foi à esquerda, Aécio à direita.

Na defesa adversária, FHC, o lateral-direito, dava várias pixotadas. O jogo era por ali, pela ponta-esquerda.

A estratégia deu certo. A vitória veio pela esquerda.


Para governar, é hora de entender o recado que o Brasil deu: “Bota ponta-esquerda, Dilma!”.


Valeu,

Bruno Porpetta

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Provação

Vivemos tempos bicudos! Durante décadas os trabalhadores foram perdendo o debate ideológico. A elite fincou o cajado no chão e disse: este país é meu!

Resistimos, sobrevivemos... Pois é, ainda estamos vivos. Este deve ser o ponto de partida pra começarmos a entender algumas coisas, ou produzir novas perguntas.



Não adianta negar. Coube à esquerda a defesa dos trabalhadores ao longo da história. A direita está aí desde a revolução francesa fazendo cagada com o mundo, brincando com a vida das pessoas como se estas fossem copos plásticos.

Diante da tentativa de uma galera, em geral jovens que não enfrentaram ainda a contradição capitalista no mundo do trabalho, de se levantar, a reação é estúpida, estapafúrdia, violenta. Os jovens não fizeram nada além de dizer que as coisas, do jeito que estão, não estão boas. E não estão mesmo, ora bolas!

Alguém ainda quer me convencer que tudo vai bem enquanto pessoas dormem na rua, só porque nossas empresas estão competitivas no mercado e outras bobagens deste tipo?

De qualquer forma, mesmo que entendêssemos que tudo vai bem, se algo não nos agrada, nós temos o direito de falar e, principalmente, de sermos ouvidos.

Até porque há uma distância enorme entre uma coisa e outra. Falar a gente fala, mas o nosso alcance é a família, o vizinho, o cara da quitanda, da padaria. Não que isso não seja importante, mas a nossa voz merece mais do que isso.

Infelizmente, apenas 11 famílias neste país tem direito a falar com todo mundo. Ou seja, só eles podem ser ouvidos. Até porque nossa tímida voz fica perdida no meio dessa parafernália da comunicação de massa.

Pois bem, nos fizemos ouvir a fórceps, no ano passado. Fomos pra rua, por qualquer motivo. Uns pelos 20 centavos, outros por mais que os 20 centavos, outros pela PEC-37, outros contra a corrupção, outros contra a Globo e a Veja, outros contra a PM. Que seja! Finalmente fomos ouvidos.

Aí os caras, com medo de perder o país de controle, além de descer a porrada na galera, prende indiscriminadamente uma turma. Uns por portar Pinho Sol, outros por livros, outros só por gosto mesmo.

Inventam as mais esdrúxulas patacoadas para justificar as prisões. Ora, até "amante de um pai de família" a anedotária Sininho se tornou. As tais 11 famílias fazem tudo para que toda a nossa história se transforme em uma novela, o maior produto de exportação da TV brasileira.

Ou seja, além de todos aqueles adjetivos que pertencem à nossa elite, podemos incluir mais um: jocosa.

Sim, a elite já está nos esculhambando. Querendo nos sacanear. Tirar uma onda com a nossa cara.

Trazendo para o mundinho particular do futebol, já havíamos conversado anteriormente sobre esta "tendência" dos poderosos em nos esculachar. Eles não só estão cagando para o que falamos, como ainda querem rir da nossa cara.

Aproximando ainda mais a lente, vou entrar no mundinho ainda mais particular do Flamengo, o clube pelo qual acabei me apaixonando com seis anos de idade e nunca mais larguei.

A forma com que a atual diretoria trata de algumas questões é igualmente violenta como a porrada nas manifestações. A demissão de Jayme de Almeida é um exemplo bastante eloquente disso.

Pois bem, não basta ser violento, tem que ser jocoso.

Os caras, na onda "retrô" da CBF, se igualando ao que existe de mais funesto no futebol brasileiro e, "coincidentemente", estabelecendo uma relação esquisita entre uma coisa e outra, ressuscitam o Vanderlei Luxemburgo.

E boto a coincidência entre aspas, porque considero bastante esquisito que Luxemburgo assuma o Flamengo logo após ser cogitado para a seleção, em nome da amizade com Gilmar Rinaldi, o novo diretor de seleções da CBF. Esta mesma entidade que leva bastante tempo para regularizar a situação dos dois únicos reforços do Flamengo neste período de Copa.

E convenhamos, o Flamengo possui uma joia chamada Samir no elenco. Apontado por alguns como um zagueiro capaz de estar na próxima Copa, e uma excelente oportunidade de negócios.

Resumindo, esta diretoria - que pertence à elite, tal como todos os outros "caciques" da política rubro-negra - não só violenta o torcedor, como ainda tira uma onda. Tal como sua classe social.

E acho bem provável que "dê certo". Ou seja, o Flamengo não deve cair.

O que vai permear essa caminhada é que parece muito esquisito. Tal como na nossa vida por aí.

Não acredito que estejamos derrotados, muito pelo contrário. Temos dado prova de vida, respirado. O que nos faz pensar que tudo isto, na verdade, é uma grande provação pela qual temos que atravessar.

E vamos...


Valeu,

Bruno Porpetta

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

De que lado você samba?

O dia 16 de dezembro de 2013 é uma data marcada por mais uma morte do futebol brasileiro.

Um país cujo campeonato é, mais uma vez, decidido nos tribunais.



Diferentemente do italiano, onde as relações que levaram ao rebaixamento da Juventus e deram o título a Inter de Milão eram criminosas e quem arbitrou sobre a questão foi a justiça comum, aqui temos um tribunal corporativo que se move ao sabor do vento que sopra mais forte.

É inegável que, do ponto de vista legal, a Portuguesa cometeu um equívoco primário que acabou por lhe tirar os pontos e a permanência na primeira divisão.

Da mesma forma que, falando em peso político, o Fluminense possui muito mais que a Portuguesa.

Pois bem, este post não é pra qualquer pessoa.

Quem me conhece, sabe que sou comunista. Desses chatos que não gostam de shopping center, McDonalds e outros símbolos do capitalismo, embora muitas vezes por motivos mais torpes que as teorias marxistas.



Gostaria de falar aos comunistas, aos que sonham com outra sociedade, aos que sabem que o estrito cumprimento das leis - feitas por aqueles a quem costumeiramente combatemos - favorecem aos poderosos, à legitimação da ordem hegemônica. Resumindo, à opressão de classe que dizemos lutar contra.

Sob a batuta da lei, massacramos os povos originários do Brasil. Porque, afinal de contas, as propriedades portuguesas estavam assim determinadas.

De acordo com a lei, negros e negras viveram em condições sub-humanas nas senzalas, trabalhando de sol a sol para os senhores da casa grande, sendo vendidos, trocados, devolvidos, como se fossem pedaços de carne que deterioram ao relento. Tava lá, escritinho no nosso caderno supremo de normas que nos regiam.



Pela lei, esses "vagabundos" do MST devem ser retirados à força das terras ocupadas (ou poderíamos dizer invadidas?) porque nossa constituição coloca a propriedade (mesmo concentrada nas mãos de poucos) no mesmo patamar da vida. Não tem o que discutir, é lei!

O aborto é crime, tá na lei! Homofobia pode, porque não tá!

Esta semana vi várias daquelas frases clássicas sobre direito, justiça... Acho que este ponto nós precisamos voltar a estudar. Lutamos pelo direito ou por justiça?



A frase que me chamou mais atenção sem sequer ser publicada nesta semana foi:

"Aos amigos, tudo! Aos inimigos..." Olha ela aí de novo!

Para concluir (nos três minutos de vossa atenção que toda reunião, de forma protocolar, me dá), o que aconteceu hoje está absolutamente dentro da lei.


O que, para nós comunistas, não devia significar absolutamente nada!

Aliás, em outros tempos, ser comunista também foi ilegal...


Valeu,

Bruno Porpetta


P.S.: Este post está recheado de fotos do "estrito cumprimento da lei".

sábado, 9 de novembro de 2013

Touré? Touché!

Yayá Touré, meio-campo da seleção da Costa do Marfim e do Manchester City, pertenceu ao apogeu do Barcelona. Formou durante três temporadas (entre 2007 e 2010) aquele meio mágico do time catalão, com Xavi e Iniesta.

Ao começar a perder espaço no time para Busquets, procurou outro time para jogar. Hoje, está no milionário azul da cidade de Manchester, na Inglaterra.



Tem jogado muito, diga-se de passagem.

Aquele período na Catalunha lhe deu projeção. É um dos mais conhecidos jogadores marfinenses no mundo, estando atrás apenas de Didier Drogba.

Pela Liga dos Campeões da Europa deste ano, foi à Moscou enfrentar o CSKA. O City venceu por 2 a 1, com dois gols de Aguero.

Dentro de campo, os jogadores estão tão concentrados no jogo que, muitas vezes, não prestam atenção no que vem das arquibancadas. Desde que a torcida não se faça notar por algo realmente diferente do habitual.

A torcida do CSKA se fez notar. E da pior forma possível. Ou melhor, da forma mais recorrente possível na Rússia, sede da Copa do Mundo em 2018.

Toda vez que Yayá Touré tocava na bola, um ensurdecedor urro vinha das arquibancadas. Uma representação tosca de macacos urrando.

Não, amigos! Não é uma suspeita, ou uma confusão do jogador. Era isso mesmo. Toda vez que ele pegava na bola, a torcida inteira imitava um macaco.

A Rússia tem se tornado um centro mundial da irracionalidade, do preconceito, da patifaria autoritária. Tudo isto com anuência estatal. Ou melhor, digamos que o Estado russo cumpra o papel de maior propulsor disso.

Os casos de racismo no futebol (para ficar no que é mais notório, ultimamente) russo são frequentes. Existe até um clube que é conhecido por não aceitar negros, sob o pretexto da não aceitação da torcida: o Zenit.

O brasileiro Hulk, nordestino de olhos verdes, que pode até correr para outra autodefinição racial (embora não se possa negar sua descendência negra), sofreu logo que chegou por lá. Até por companheiros de time.

No Anzhi, Roberto Carlos (que também é negro, embora não conte pra ninguém) sofreu racismo. A foto abaixo é bastante elucidativa.



Mas quem disse que é só racismo? A homofobia também é gritante! A Parada Gay em Moscou foi proibida! Vários militantes pela livre expressão sexual tem que se deslocar para São Paulo para poderem ser ouvidos.

Resumindo, o que acontece descaradamente na Rússia é escandaloso, aviltante, revoltante.

Este autoritarismo russo descende do czarismo, também perpassa os tempos de "socialismo real".

Por outro lado, existe uma campanha da FIFA contra o racismo.

Em geral, placas à beira do campo, faixas trazidas pelos jogadores, entre outras "ações" com a inscrição "Diga não ao racismo" (Say no to racism) são frequentes nos jogos.

Punição? Nenhuma!

Quando perguntado, Joseph Blatter diz que os casos de racismo dentro do campo são circunstâncias de jogo, que devem ser encerrados no apito final.



O racismo não é uma falta para conter contra-ataques! Esta sim é uma circunstância de jogo. E esta é punível com cartão. O racismo, nem isso.

Touré, além de pedir punição ao CSKA, propõe um boicote negro à Copa do Mundo de 2018. Que seleções africanas e jogadores negros ao redor do mundo não participem de uma Copa em um país racista.

A proposta é muito boa, embora pouco viável.

Ela já começa com um furo. Ninguém disse a Touré, mas a Rússia não é o único país racista do mundo.

A sede da próxima Copa, num país bastante conhecido por nós, chamado Brasil, também sofre com a questão. Talvez o que falte à Rússia é uma mídia tão determinada a jogar o racismo para debaixo do tapete. O tapete da "democracia racial".

Falta um longo papo entre os novos czares russos e Ali Kamel.

Ao menos, a proposta provoca reações imediatas da FIFA, preocupada em não prejudicar seu principal produto: a Copa.

Blatter já admitiu analisar a questão.

Por outro lado, é preciso entender que o racismo no futebol não pode ser tratado de dentro do campo para fora, mas sim o contrário.

Nenhum jogador aprendeu a ser racista dentro do campo. E a arquibancada é o local onde mais ele se manifesta nos estádios.

Como a legislação varia de país para país, o racismo pode ser crime em alguns e não em outros. Portanto, a FIFA deve tomar para si a resolução do problema no futebol.

Os clubes e torcidas só entendem um tipo de linguagem: a punição.

Não que eu seja um punitivista que acredite que ela solucione o problema, mas ao menos pode ser um símbolo que mostre ao mundo o quão estúpido é o racismo.

Mas voltando à punição, ela deve ser pecuniária e esportiva, sem exclusão de uma ou de outra.

Pode-se até pensar em punições gradativas, de acordo com a reincidência, mas o patamar mínimo já deve ser bastante pesado.

Por exemplo: comecemos com 30% da folha salarial da equipe em multa (podendo ser regressivo aos jogadores, por parte do clube, mas apenas em segunda ordem), perda de cinco mandos de campo em competições organizadas pela mesma entidade do jogo em questão, além da perda dos pontos da partida.

Em caso de reincidência, 50% da folha salarial, 10 mandos de campo e seis pontos perdidos.

Na terceira vez, multa no valor integral da folha salarial da equipe, perda de 15 mandos de campo e exclusão da competição, com rebaixamento, se for o caso.

Esta é apenas uma proposta, sujeita à críticas, sugestões, etc.

Ainda mais porque os negros teriam mais legitimidade do que eu para discutí-la e apresentá-la.

De qualquer forma, o debate proposto por Touré é fundamental.

Primeiro, porque o racismo ganhou proporções ainda mais absurdas de uns tempos para cá. Segundo, porque a campanha da FIFA contra o racismo está comprovadamente desmascarada como uma farsa contra o povo negro.

O que acham?


Valeu,

Bruno Porpetta

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os insones

O que mais se ouve, ou lê, é que o Brasil acordou.

A revolta iniciada pela redução do preço das passagens, desembocou em cenas tocantes para quem, há muito tempo, questiona a política de privatizações dos serviços públicos, dentre eles o transporte.

São milhares e milhares de vozes, duramente reprimidas pela nossa lembrança mais candente da ditadura militar: a Polícia Militar.

No afã de construirmos uma nova história em nosso país, sendo uma marca desta nova geração para as futuras, acabamos muitas vezes reproduzindo os equívocos das passadas.

Esta não é uma prerrogativa exclusiva desta geração, mostrando que a história, ao ser ignorada, repete-se como farsa. O que não é novidade para quem conhece o marxismo.



De qualquer forma, é fundamental que retomemos as ruas como um espaço coletivo, que reflita nossos sonhos, por mais diversos que sejam.

É justamente esta diversidade que, se tolhida, dá espaço ao ranço autoritário típico das elites. Como os caminhos a seguir por estas mobilizações estão em aberto, as próprias elites enxergam nelas uma possibilidade para o recrudescimento de seus instintos mais canalhas.

Durante 20 anos, atravessamos um deserto de ideias, sufocadas pelas mãos destas elites que financiavam os filmes de Arnaldo Jabor, patrocinaram o crescimento das organizações Globo, que produziram as oligarquias regionais que hoje contestamos (mesmo que estas sejam contempladas em parte no atual governo que, em tese, está do lado de cá do muro).

Neste tempo, lutamos por bandeiras. As bandeiras da liberdade de pensamento, de crença, étnica, de organizar-se.

Através destas lutas, foi possível voltar às ruas. Mas as lições deveriam ser aprendidas.

Foi para poder levantar bandeiras que lutamos tanto. Para poder nos expressar de forma livre. Nos organizar onde quisermos, respeitando as demais formas de organização.

Se elas são de partido, é porque aquela luta tornou isto possível.

Ao Brasil que acorda, é preciso lembrar que houve gente que, por todo este tempo, nunca dormiu.


Valeu,

Bruno Porpetta

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ah! Se fosse primeiro de abril...

Morre Oscar Niemeyer!



Já devo ter ouvido esta notícia umas 300 vezes nos últimos 20 anos. Estava quase crente que a morte de Niemeyer era uma eterna brincadeira de 1º de abril.

Mas em 5 de dezembro de 2012, a notícia deixou de ser brincadeira.

Partiu um gênio da arquitetura! A despeito de opiniões individuais a respeito de algumas de suas obras, é inegável que Niemeyer tornou a arquitetura brasileira uma arte. Será lembrado como parte da história da arquitetura, que se confunde com a história da arte em todo o mundo.

Partiu um histórico comunista! Alguém que reivindicava, no alto de sua fama, um outro modelo de sociedade.

Sua morte consegue, ao mesmo tempo, ser óbvia e surpreendente. Isto em si, já é um grande feito. De um grande cara.

Seja bem-vindo à eternidade, camarada!

Valeu,

Bruno Porpetta

sábado, 10 de novembro de 2012

RESOLUÇÃO DE BALANÇO DAS ELEIÇÕES 2012 APROVADO NA EXECUTIVA NACIONAL DO PSOL


Eleições municipais: um PSOL mais forte e vitorioso



1. O Partido Socialismo e Liberdade enfrentou as eleições de 2012 num quadro ainda marcado pela estabilidade da hegemonia burguesa no Brasil. Essa estabilidade tem assegurado a adoção medidas conservadoras que impediram até aqui que os efeitos da crise econômica mundial fossem mais fortemente sentidos internamente. A redução das taxas de juros com indução do investimento interno – justificado, sobretudo, pelas grandes obras de infraestrutura com vistas aos mega eventos esportivos – aliado à forte política de renúncia fiscal e manutenção do consumo, criaram barreiras temporárias aos efeitos da crise internacional. Evidentemente, essas medidas não são sustentáveis, uma vez que aprofundam a dependência externa e deixam o país vulnerável à instabilidade do mercado. Basta lembrar, por exemplo, que a recente desaceleração da economia chinesa vinha impactando fortemente a balança comercial brasileira nos últimos meses, situação que dá sinais de reversão.

2. No cenário político interno, a manutenção do consumo e dos investimentos públicos e privados – em grande medida financiados pelo BNDES, hoje o segundo maior banco de fomento do mundo – geraram um sentimento de relativa segurança econômica para os trabalhadores. Não por outra razão, Dilma e seu governo ostentam níveis elevadíssimos de aprovação. A oposição conservadora, por seu compromisso com o atual modelo econômico, não tem conseguido apresentar-se como alternativa. Contudo, os limites do atual projeto político e econômico, representados pela incapacidade de atender às reivindicações populares por aumento salarial, reforma agrária e urbana, serviços públicos de qualidade e conquista de direitos, abre espaço para uma alternativa de esquerda na política nacional. Por isso as eleições desse ano, embora de âmbito local, ajudaram a credenciar o PSOL para ocupar um espaço mais expressivo no cenário político brasileiro.

3. O saldo das eleições municipais não representou alteração substancial da correlação de forças entre os blocos políticos dominantes no país. A tendência de crescimento do PT se manteve e a conquista da cidade de São Paulo foi o principal símbolo desse avanço. Porém, dentro do condomínio que governa o país, outros atores saíram-se fortalecidos, como o PSB, que pode agora ensaiar voos mais audaciosos em 2014 ou ter papel de maior destaque na atual coalizão. Considerando os seus cinco partidos principais (PT, PMDB, PSB, PDT e PCdoB) a base do governo elegeu 2468 prefeitos e governará 55,18% da população brasileira, além de terem vencido a disputa em 16 capitais.

4. A oposição conservadora, mesmo vencendo em Manaus, Belém e Salvador, saiu enfraquecida. Seus próceres acreditavam que o julgamento do Mensalão nacionalizaria o debate das eleições municipais e que provocaria uma queda na votação do PT e dos seus aliados. É verdade que em cidades importantes do Nordeste o PT perdeu as eleições, mas motivos locais foram muito mais importantes do que temas nacionais. Basta analisarmos a derrota em Salvador, relacionada diretamente à rejeição do governo estadual petista, ou ainda, as derrotas em Fortaleza e Recife, que devem ser creditadas à força de seus  governadores. Considerando seus principais partidos a oposição conservadora elegeu 1103 prefeitos e governará para apenas 20,14% dos brasileiros, elegendo sete prefeitos em capitais.

5. Foi nesse cenário complexo que o PSOL enfrentou as eleições municipais desse ano: eleições quase sempre marcadas muito mais por temáticas locais que pela situação nacional. Como regra, mesmo as candidaturas do PSOL apresentaram-se como alternativa de poder local, dialogando com a realidade dos municípios e evitando transposições automáticas do cenário nacional, o que demonstra um amadurecimento do partido. Conseguimos desenvolver na maioria das cidades de forma equilibrada a relação entre o local e do nacional. Sobretudo nas capitais, nossos programas de governo para os municípios trabalharam centralmente temas como a dívida pública, a mobilidade urbana, a garantia de direitos como saúde e educação, a defesa do meio-ambiente, o combate à corrupção, a participação popular e o financiamento das campanhas. Enfim, temas com uma forte correspondência com a realidade dos milhares de municípios brasileiros.

Por que o PSOL cresceu?

6. O resultado eleitoral positivo, porém, se deve a variados fatores. O PSOL se credenciou através de sua presença nas lutas sociais para fazer a disputa de hegemonia na sociedade e melhorar seu despenho eleitoral. A presença de nossa militância e de nossos parlamentares em favor dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, defendendo a resistência popular na ocupação do Pinheirinho, nas lutas do funcionalismo público, na greve dos Bombeiros no Rio de Janeiro e combatendo as reformas no Código Florestal – transformando o PSOL em referência da luta ambiental – fortaleceram o partido como referência política de esquerda. Além disso, nosso protagonismo na CPI do Cachoeira com nossos deputados federais e nosso Senador, e nossa iniciativa de pedir a cassação do mandato do Senador Demóstenes Torres, reafirmou nosso compromisso com a ética e nossa independência política.

7. Ademais, o equilíbrio correto entre a ação institucional e nossa presença nas lutas sociais demonstra que o partido caminha para afirmar-se como alternativa viável às eleições de 2014. Demonstramos a importância de uma participação qualificada no processo eleitoral, combinando uma tática correta de ampliação com o acúmulo prévio que se deu na luta popular e institucional. Nosso crescente enraizamento popular e nossa ação parlamentar competente e reconhecida demonstram que temos evitado tanto a priorização dainstitucionalidade quanto o movimentismo despolitizado.

8. Apresentando-se como alternativa de esquerda, nosso partido cresceu. Fomos o partido com o maior número de candidatos a prefeito nas capitais, na maioria dos casos em chapas sem coligações. Recebemos 2,3 milhões de votos no primeiro turno para prefeito e 1,1 milhão de votos para nossa chapa de vereadores. No segundo turno tivemos 473 mil votos, mesmo disputando a eleição em apenas duas cidades. Elegemos dois prefeitos: o companheiroGelsimar Gonzaga, em Itaocara (RJ), e o companheiro Clécio Luís, em Macapá, primeiro prefeito do PSOL numa capital. Aumentamos de 25 para 49 o número de vereadores eleitos, sendo 21 deles em capitais. Mantivemos ou ampliamos nossa bancada em algumas das principais cidades do país (Porto Alegre, Fortaleza, Goiânia, Niterói, Viamão, Maceió, Macapá e Rio de Janeiro) e elegemos nossos primeiros vereadores em cidade importantes como Florianópolis, Natal, Salvador, Campinas e Belém. Na cidade de São Paulo, maior cidade do país, elegemos nosso primeiro vereador.

9. Importante destacar, ainda, o virtual crescimento da votação do PSOL nas capitais. Como regra geral, houve um incremento da votação majoritária do partido em importantes cidades do país superando em muito o desempenho nas eleições de 2008. Destacam-se, dentre outras, as votações dos candidatos do PSOL em capitais como Florianópolis (14,4%), Fortaleza (11,8%) e Boa Vista (10,6%) que superaram a marca dos 10%.

10. Além disso, o desempenho do PSOL nas cidades definidas como prioritárias pelo partido em seu último Congresso – Rio de Janeiro, Belém e Macapá – mostram o acerto de nossa tática. Pela primeira vez, nosso partido assumiu o papel de principal antagonista às forças conservadoras em três importantes capitais, sendo uma delas a segunda maior metrópole do país.

Principais resultados  

11. No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo alcançou 28% dos votos no primeiro turno, transformando-se no principal candidato de oposição ao governo de Eduardo Paes (PMDB). Nem mesmo nomes tradicionais na política carioca, como Rodrigo Maia (DEM) ou Otávio Leite (PSDB), puderam fazer frente à força da candidatura de Freixo. Reelegemos nossos vereadores e ainda conquistamos mais duas vagas na Câmara. Angariando o apoio de amplos setores da juventude, intelectualidade, movimentos sociais, artistas e deslocando setores partidários contrários a participação no condomínio do poder estabelecido em torno do PMDB, o PSOL impulsionou no Rio um extraordinário movimento de renovação política. A juventude, em especial, cumpriu um papel de destaque nesse processo. Além do extraordinário desempenho individual, Freixo ainda contribuiu com a ampliação da bancada do PSOL na Câmara de Vereadores, ampliando a representação do partido de dois para quatro parlamentares. O balanço no Rio de Janeiro, portanto, só pode ser vitorioso: ao mesmo tempo em que consolidamos nossa referência de principal polo aglutinador da esquerda carioca, ampliamos nossa representação na Câmara de Vereadores e consolidamos nosso trabalho político no capital.

12. Em Belém e Macapá, a ida do PSOL ao segundo turno mostra a correção da política de alianças aprovada pelo partido em seu III Congresso e referendada pelo Diretório Nacional. Sem a ampliação do arco de alianças para a além da Frente de Esquerda, o exíguo tempo de TV e o ainda incipiente enraizamento do PSOL nessas e em outras capitais, teria impedido a ida de nossos candidatos ao segundo turno. Assim, a presença do PCdoB na chapa de Edmilson Rodrigues em Belém, e do PPS e outros partidos na chapa de Clécio Luís em Macapá, longe de comprometer nosso programa ou nosso discurso (como chegou a ser defendido por alguns setores) foi decisiva para assegurar nossa ida ao segundo turno nessas cidades.

13. Em Belém, mesmo sendo derrotado no segundo turno, o partido teve uma grande vitória política. Com pouco mais de um minuto conseguimos um terço dos votos da cidade. Elegemos cinco vereadores em nossa coligação, sendo quatro do PSOL, entre eles a companheira Marinor Brito com mais de 20 mil votos. Também por isso, no primeiro turno nossa candidatura foi alvo de ataques impiedosos por parte de quase todas as demais candidaturas. O esforço dos setores conservadores de desconstrução da imagem de Edmilson e dos oito anos de Governo do Povo, porém, não foi suficiente para impedir que nossa candidatura fosse ao segundo turno em primeiro lugar. Evidentemente, essa campanha difamatória cobrou seu preço, e a possibilidade de vitória ainda no primeiro turno deu lugar a uma pequena vantagem sobre nosso adversário ao final dos primeiros noventa dias de campanha. O otimismo que levou parte da militância a sonhar com uma vitória no primeiro turno, porém, não deve obscurecer a importância desse resultado.

14. No segundo turno enfrentamos a frente única das elites e obtivemos 43% dos votos da cidade. Foi um resultado conquistado pelos acertos da direção, pelo carisma e disposição militante do nosso candidato, pela capacidade de ampliação de alianças e pelo engajamento militante de milhares de pessoas, de diferentes partidos, unidas em torno do sonho de restaurar um governo popular em Belém. Edmilson conseguiu unir todos os setores progressistas em torno dele, experiência que não pode ser diminuída. O PSOL se tornou, através dele, a principal referência política da esquerda no Pará. Com isso, nosso partido se credenciou duplamente: como importante força política naquele estado e como liderança da oposição aos tucanos.

15. Em Macapá, o PSOL buscou desde o primeiro momento apresentar-se como principal alternativa à quadrilha que governou a cidade nos últimos quatro anos. Num quadro muito adverso, lutando contra as máquinas eleitorais da Prefeitura, em favor de Roberto Góes (PDT), e do governo estadual, em favor de Cristina Almeida (PSB), o empenho de nossa combativa militância, o prestígio emprestado por nosso Senador, Randolfe Rodrigues, e as qualidades individuais de nosso candidato, levaram nossa coligação ao segundo turno.

16. Uma vez no segundo turno, a engenharia política operada pela direção do PSOL em Macapá logrou ao mesmo tempo, receber o apoio dos partidos de tradição progressista no estado (PCdoB e PSB) quanto neutralizar adversário do campo conservador. O apoio declarado pelo candidato do DEM, Davi Alcolumbre, e de outros setores ou frações da direita local, embora sejam alvo de questionamento de setores do partido, foi decisivo para a vitória do PSOL. A diferença de pouco mais de 1% demonstra que, sem essa movimentação, teria sido impossível derrotar a máfia que governa Macapá.  

Principais dificuldades

17. Porém, não tivemos apenas vitórias nessas eleições. Em cidades importantes do país, nosso desempenho ficou aquém do necessário. Principal expressão dessa situação é São Paulo. Além disso, a eleição de pelo menos oito vereadores em coligações não autorizadas ou expressamente vetadas pelo Diretório Nacional demonstram que é necessário aprimorar o acompanhamento junto às direções estaduais e dar uma solução política a esses casos. Ademais, houve casos onde mesmo a pronta intervenção da Direção Nacional através de seus advogados não foi atendidas pelos juízes eleitorais, permitindo que coligações vetadas fossem mantidas.  

18. Além disso, ficou claro que a beligerância interna que cercou o debate em torno da política de alianças antes do início das eleições, impediu que o partido constituísse uma linha mais unitária de intervenção nas disputas locais. Embora tenha se constituído num avanço importante, o Seminário de Programa de Governo não foi suficiente para armar nossas candidaturas com uma orientação comum na disputa. A reestruturação da Fundação Lauro Campos e seu funcionamento como espaço formulador de políticas para o partido e suas candidaturas será um passo fundamental para suprir essas insuficiências nas próximas eleições.

19. Outro problema enfrentado pelo partido foram as declarações públicas em favor de candidatos em cidades onde o PSOL estava fora do segundo turno. Independente da avaliação sobre o melhor nome em disputas como essa, a posição da instância local deve ser levada em conta, evitando assim declarações unilaterais que contradigam deliberações por elas tomadas. A declaração do companheiro Randolfe Rodrigues em favor do candidato Marcus Alexandre (PT) em Rio Branco foi um erro já reconhecido pelo próprio companheiro em carta enviada ao partido recentemente.

20. Mais grave, porém, foram as declarações do companheiro Plínio de Arruda Sampaio, ex-candidato à Presidência da República, em favor de José Serra, candidato tucano em São Paulo. Independente de todo o respeito e admiração que nosso partido nutre por ele, as declarações de Plínio nas redes sociais e sua indisfarçada simpatia por Serra, trouxeram problemas graves à imagem do partido. Apesar da posição da Direção Municipal ter aprovado resolução frontalmente contrária à eleição do tucano, a declaração de Plínio teve uma repercussão muito maior, o que trouxe danos ainda não mensurados à imagem do PSOL em São Paulo.

O segundo turno em Belém e Macapá

21. Nossa política de alianças, aprovada no III Congresso do PSOL, favoreceu uma tática que ampliou a força eleitoral do partido, tornando reais as chances de vitória nessas capitais. No segundo turno, recebemos adesões de partidos e forças sociais que fortaleceram nossas candidaturas nas duas capitais citadas. Entre eles, partidos com uma trajetória popular que reforçam nossa condição de alternativa às velhas elites que governam Belém e Macapá, respeitando os limites impostos pelas resoluções partidárias acerca da política de alianças estabelecida para o primeiro turno.

22. Além de partidos, é natural que candidatos derrotados no primeiro turno, personalidades e lideranças políticas que estão fora do segundo turno definam-se pelo apoio às nossas candidaturas. Essa decisão é pessoal e, como regra, não pode ser renegada haja visto o próprio caráter plebiscitário do segundo turno. Assim, esses apoios serão bem-vindos sempre que vierem no sentido de reforçar nosso compromisso com o povo e não implicarem concessões programáticas ou negociação de espaço em futuras administrações do PSOL.

23. As movimentações táticas envolvendo Belém e Macapá no segundo turno foram amplamente exploradas pela imprensa e pela luta interna do partido. É dever de nossa Direção Nacional, portanto, posicionar-se diante dos fatos. Preliminarmente, deve-se destacar o acerto da maioria da Direção Nacional e especialmente de nosso Presidente, que esperou o fim das eleições para então convocar as instâncias partidárias. A utilização de resoluções do partido, críticas ou não, por parte de nossos adversários era um risco que não poderíamos correr. Ademais, as dificuldades práticas impostas pelo envolvimento de vários dirigentes nas campanhas em ambas as cidades, muito provavelmente inviabilizaria uma reunião qualificada.

24. Pela primeira vez nosso partido disputou as eleições em segundo turno e essa novidade favoreceu o afloramento de divergências teóricas relevantes. Tais divergências precisam ser aclaradas antes de qualquer avaliação específica. No primeiro turno do processo eleitoral confrontamos projetos e a política de alianças está condicionada a fortalecer e/ou dar viabilidade para que tal projeto se apresente em condições de ter audiência perante o eleitorado. Foi por isso que ampliamos o leque de alianças para além da antiga frente de esquerda, processo que foi criteriosamente analisado pelo Diretório Nacional.

25. O segundo turno é um momento plebiscitário por excelência, ou seja, de todos os projetos em disputa, apenas dois conseguem votos para essa etapa. É natural que os alinhamentos dos eleitores e das forças políticas sejam presididos não só pelo programa apresentado pelos dois concorrentes, mas também pelos cálculos políticos que cada força excluída da disputa fará sobre o possível resultado. Assim, cabe aos revolucionários que disputam um segundo turno dois movimentos políticos essenciais: neutralizar ou fracionar a coalizão conservadora e aglutinar todas as forças progressistas existentes. O recebimento de apoios deve estar condicionado a esta tática política plebiscitária.

26. Em Belém, as forças conservadoras se alinharam de imediato ao candidato tucano, galvanizadas pela força da máquina do governo estadual. A tática de Frente Belém nas mãos do povo foi ampliar para candidaturas identificadas publicamente como progressistas (PPL e PT) e tentar explorar contradições no bloco conservador. Foi assim que se conseguiu o apoio do PDT (cuja direção culpa o atual governador pelo resultado contrário à separação do estado). O apoio do PT foi imediato e trouxe para o segundo turno um reforço militante muito importante, seja potencializando a parte que já havia apoiado Edmilson, seja engajando vereadores e deputados estaduais no dia-a-dia da campanha. Evidentemente, esse apoio se deu, sobretudo, pelo interesse do PT em derrotar os tucanos, o que apenas comprova que mantivemos nossa autonomia e independência em relação a esse partido. Devido ao crescimento eleitoral dos tucanos sobre cidades governadas pelo PMDB, este partido se absteve no segundo turno, comportamento que foi importante para neutralizar uma poderosa máquina eleitoral local que naturalmente estaria com o candidato conservador.

27. Apesar do bom desempenho no primeiro turno, iniciamos o segundo turno em desvantagem. Três problemas precisariam ser superados: imagem de que nossa candidatura era o passado e o tucano a novidade; a ideia de que Edmilson estava isolado politicamente para cumprir o que estava prometendo e Zenaldo tinha forte apoio do Governador; e o discurso de que Edmilson foi um bom governante, mas era necessário “dar uma chance” ao tucano. Nossa estratégia de TV e Rádio buscou combinar a superação destes três entraves. Apresentamos um conjunto de propostas novas para a cidade, mostrando que o novo governo enfrentaria problemas represados. Buscamos comparar as biografias e denunciar o caráter privatizante dos governos tucanos e mostrar que Zenaldo não era novo, mas corresponsável pelos catorze anos de governo tucano na esfera estadual.

28. Estes ajustes não surtiram o efeito desejado e continuávamos aparecendo aos olhos do eleitorado como isolados para governar. Foi neste contexto de plena incorporação do PT na campanha que decidimos utilizar depoimentos das duas principais figuras públicas petistas (Lula e Dilma). A intenção era neutralizar o apoio estadual contrapondo o espaço que Edmilson teria junto ao governo federal. Toda a lógica dos apoios exibidos na TV foram direcionadas para este objetivo.

29. Em que pese a derrota na disputa eleitoral, a campanha de Edmilson conseguiu unir todos os setores progressistas da cidade e credenciou o partido e nosso candidato como principal força política opositora da hegemonia tucana. Vale ressaltar que além do governo estadual, o PSDB governará as três maiores cidades do estado (Belém, Santarém e Ananindeua).

30. Em Macapá, ao final do primeiro turno, nossa candidatura obteve a confiança de 28% do eleitorado. Nosso adversário alcançou 40%. Para vencer no segundo turno seria necessário uma engenharia política que combinasse a busca de apoios à esquerda, mas que não colasse em nossa candidatura o desgaste do governo estadual do PSB e, ao mesmo tempo, neutralizasse e fracionasse uma provável coalizão conservadora em torno do atual prefeito.

31. Assim, no segundo turno tivemos a manifestação de apoio do PCdoB e do seu candidato, Evandro Milhomen, e recebemos apoio do candidato Davi Alcolumbre (DEM), mesmo que isso não tenha significado o apoio de seu partido, já que a vice-prefeita e atual presidente do Diretório Municipal do DEM, manteve-se fiel ao candidato adversário, assim como o vereador reeleito deste partido.

32. Não existiu apoio do PSDB. Sua direção estadual está sob intervenção. O único deputado estadual do PSDB (JK) e o Deputado Federal, Luis Carlos, estavam no palanque e na coordenação de campanha de Roberto Góes. A nossa candidatura recebeu o apoio do ex-senador Papaléo e do presidente destituído do Diretório Estadual Jorge Amanajás. Este último está se filiando ao PPS.

33. Tivemos o apoio do vereador eleito pelo PTB Lucas Barreto, mas não tivemos manifestação formal do seu partido em apoio a nossa coligação. Na última semana, tivemos ainda o apoio decisivo do PSB, que assumiu a campanha com sua militância coibiu, através do governo estadual, a compra de votos por parte do candidato conservador.

34. Não houve compromisso de composição no futuro governo com nenhum dos partidos ou segmentos partidários que conseguimos atrair para a candidatura de Clécio no segundo turno. Além disso, a direção partidária local já declarou que os setores de partidos conservadores não terão participação na composição do futuro governo de unidade popular.

35. Os próprios companheiros do Amapá já admitiram que a engenharia política desenvolvida no segundo turno, especialmente os apoios recebidos de parte dos partidos conservadores, poderia e deveria ter sido mais bem construída internamente ao partido, dialogando com nossas instâncias nacionais e ouvindo ponderações. A falta destas providências gerou dúvidas sinceras em nossa militância e também ataques desleais, alguns dos quais foram ostensivamente utilizados pelo nosso adversário.  

Não podemos transformar nossas vitórias em derrotas

36. Diante dessas movimentações, nosso partido vivencia mais um capítulo de sua vocação para a luta interna. Ainda no primeiro turno alguns setores partidários se dedicaram a atacar por notas e nas redes sociais as deliberações soberanas das instâncias do partido sobre coligações. No segundo turno, mesmo sabendo que tais declarações seriam (como efetivamente foram) utilizadas pelos nossos adversários, foram lançadas cartas públicas, entrevistas e outras formas de divulgação de posicionamentos contrários às ampliações de apoios recebidos inclusive em espaços da mídia e parlamento burgueses.

37. O partido, ao contrário do que talvez sonhavam alguns, não foi derrotado nas eleições de 2012. E as decisões sobre política de alianças foram essenciais para a ida pro segundo turno em Belém e Macapá e na vitória no segundo turno na capital amapaense.

38. Devemos criticar o método utilizado para que determinados apoios fossem recebidos no segundo turno e a falta de diálogo com a direção partidária nacional para que desconfianças sobre tais movimentações não fossem disseminadas. Mas, em nenhum dos dois casos presenciamos posturas que ferissem os princípios éticos do partido, ou seja, a ampliação ocorrida em Macapá ou Belém não colocou em risco o programa partidário apresentado aos eleitores nestas duas cidades e não incorreram em negociatas de cargos nos futuros governos.

39. Por isso, a direção partidária deve acompanhar o processo de constituição do governo de unidade popular em Macapá, contribuindo para que os espaços na estrutura do futuro governo estejam de acordo com os objetivos partidários. Além disso, deve acompanhar nosso prefeito em Itaocara para dar total resguardo contra qualquer tentativa de desestabilizar esse governo, colaborando ativamente para que tais experiências sejam bem sucedidas, transformando-as em ferramentas de propaganda do partido como alternativa de esquerda em nosso país.

40. Para além de nossa aguerrida militância, nossos mandatos parlamentares e nossos prefeitos serão, sem dúvidas, instrumentos da resistência popular em favor das lutas sociais em nosso país. Com eles, o PSOL sai das eleições de 2012 credenciado como alternativa de esquerda na sociedade brasileira, crescendo na consciência popular como referência programática e ética, melhorando as condições para a disputa de hegemonia em favor de um projeto democrático, popular e socialista para o Brasil.

VIVA O PSOL!
VIVA O SOCIALISMO! 
VIVA A LUTA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS!  

Brasília, 8 de novembro de 2012

sábado, 31 de março de 2012

Dia de lembrar o que deve ser lembrado

Na noite de 31 de março de 1964, partindo do batalhão de Juiz de Fora, um destacamento militar rumava ao Rio de Janeiro, lá chegando no dia 1º de abril. Iniciava-se ali o golpe que derrubaria o governo de João Goulart e instauraria o inferno que durou, oficialmente, 20 anos.

Tempo de torturas, assassinatos, desaparecimentos, de gente que ousava ser livre.

A manifestação ocorrida na quinta-feira, em frente ao Clube Militar, foi duramente reprimida pela Polícia Militar. Lá dentro, militares, de forma cínica, comemoravam a "revolução" de 64, enquanto do lado de fora eram chamados pelos adjetivos corretos, como torturadores e assassinos que foram, impunemente.

Há nove anos somos governados por gente que foi torturada e presa por estes lacaios dos interesses estadunidenses, e até agora não sabemos a verdade sobre os inúmeros corpos que nunca mais foram encontrados.





O vídeo acima, pode até estar meio "batido", mas acho que nenhuma canção daquele período retratou tão bem o que, pelo menos, sentimos, já que não podíamos falar.

A militância me ensinou ao longo da vida que, quando não se quer resolver nada sobre determinado tema, cria-se uma comissão para discutí-lo.

Estamos às voltas com o debate sobre o estabelecimento da Comissão da Verdade, cujo papel é desvendar o que há de mistério no período da ditadura militar no Brasil. Obviamente, os militares são contrários à comissão. Exatamente por isso, todos nós que, direta ou indiretamente, tivemos subtraídos por estes monstros 20 anos de nossas vidas, devemos defendê-la.

No limite, se tivermos que abrir mão de algo, que seja a comissão, nunca a verdade!



Valeu,

Bruno Porpetta

quinta-feira, 15 de março de 2012

Parabéns! Ou não...

Se existe uma coisa que, infelizmente, não dá para cravar na mosca é o aniversário de Mafalda.



A menina de seis anos de idade, questionadora da humanidade, completa 50 anos de existência. Embora, nem mesmo Quino, o autor da personagem, concorda com isso, atribuindo apenas 48 anos a ela.

Hoje, em 15 de março, fazem 47 anos que a personagem passou a aparecer diariamente no Clarín, jornal de Buenos Aires.

De qualquer forma, se todos consagram esta data como aniversário de Mafalda, não sou eu quem vai demovê-los, tampouco deixar de dar parabéns a esta menina que ousa sonhar com um mundo melhor, inspirando muitos outros sonhadores.

Vida eterna a Mafalda!!!


Valeu,

Bruno Porpetta

sábado, 10 de março de 2012

Ilha das Flores

Assisti a este filme na escola, provavelmente da mesma forma que inúmeras outras pessoas tiveram contato com ele.

De forma inteligente, bem humorada e bastante contundente, ele foi capaz de despertar em mim, ao menos, alguma indignação diante do mundo que vivemos.

De lá pra cá, quase nada mudou. Nem crianças deixaram de comer lixo, tampouco minha indignação diante disso diminuiu, muito pelo contrário.





Luto todos os dias para que este documentário faça parte do passado, de uma vez por todas.

Não me parece ser possível enquanto vigorar o capitalismo.

Que tal derrubá-lo?


Valeu,

Bruno Porpetta

sexta-feira, 9 de março de 2012

Parabéns pra quem?

Dia 8 de março, o Dia Internacional das Mulheres.



São anúncios de floriculturas por toda a parte. Homens, delicadamente, desejando felicidades às mulheres. Uma enxurrada de parabéns.



Parabéns para quem sofre, diariamente, pela violência masculina dentro de casa?



Parabéns para quem recebe salários inferiores aos dos homens, executando rigorosamente a mesma função?



Parabéns para não tem direito sequer sobre o próprio corpo, e é obrigada a morrer em açougues chamados de clínicas de aborto porque isto, em vários países, é ilegal?



Merecem parabéns, por suportar tamanha opressão todos os dias e, mesmo assim, não desistir.



Parabéns às mulheres que lutam, que não se acomodam. Seja como mães, como esposas, como trabalhadoras, como estudantes, mas especialmente, como guerreiras.



Mulheres que ousam romper com o culto à fragilidade, sem perder a ternura.



Enfim, muito mais que parabéns, estas merecem agradecimentos.



Por contribuir tanto para que todos entendamos que não existe mudança sem o fim do machismo. E o machismo é um valor do sistema que vivemos.




Valeu,

Bruno Porpetta

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O(A) luto(a) continua





Sócrates era um sonhador.

Sonhava, certo por linhas tortas, com o socialismo. Sonhava ser cubano, dando a um de seus filhos, o nome de Fidel. Sonhava com outro futebol. Não este do porte físico, mas, fundamentalmente, do porte intelectual.

Assim, desenvolveu o calcanhar mais venenoso da história do futebol brasileiro, para compensar a deficiência física com relação a outros jogadores. Era magro, ou simplesmente Magrão, fumante e gostava da mais refinada derivação da cana-de-açúcar, o álcool.



Sócrates era um filósofo.

Tornou a bola seu maior compêndio filosófico. Sua grande contribuição aos acadêmicos do futebol. Sua deferência à beleza, ao que há de mais arraigado em nossa cultura futebolística. Sócrates tratava a bola com inteligência, dando um toque de classe e intelectualidade aos lances.

Sócrates era um revolucionário.

Tal como a Grécia, o Corinthians foi sua grande contribuição à democracia. Dentro ou fora do campo, aquele time do final da década de 70, início de 80 - anos de refluxo do nosso calvário militar - era essencialmente contestador.

Remava contra a maré de chatice que tomou conta do futebol, da onda conservadora que exaltava o comando de treinadores sobre jogadores disciplinados, quase adestrados. Em um mundo onde os operários da bola eram expressamente proibidos de pensar, ousou fazê-lo. E Sócrates foi fundamental em tudo isso.



A democracia corinthiana foi a maior experiência de liberdade e poder compartilhado da história do futebol brasileiro. Não fosse o Livorno, da Itália, seria a maior do mundo. Falava em democracia em pleno regime militar. Envolveu-se ativamente na campanha pelas eleições diretas. Sócrates partiu para a Fiorentina, indignado com a rejeição da emenda Dante de Oliveira. Não importava a vitória ou derrota, desde que com democracia.

Sócrates era um ídolo.

Um dos grandes ídolos da história do Corinthians. Um dos grandes ídolos de uma grande nação.

Aquele que, em sua apresentação ao clube, confessou-se torcedor do Santos, aprendeu a ser corinthiano. Após um início difícil, onde a ideia de sair lhe ocorreu algumas vezes, Sócrates se tornou parte daquela nação, traçando uma mediatriz entre sua classe com a bola nos pés e a garra exigida pela torcida.

Se antes não se entusiasmava com seus próprios gols, depois passou a vibrar muito com eles, como se na arquibancada estivesse.

A mistura entre Sócrates e Corinthians era perfeita. Ambos vivem em permanente angústia, inquietude, mas fazem delas seu combustível.



Não era um ídolo somente dos corinthianos. Sócrates participou de um dos mais belos times da história das Copas, a seleção brasileira de 82. Ali, o Doutor marcava seu nome entre os maiores do futebol mundial, mesmo não conquistando a taça. Da mesma forma, não importava o resultado, e sim a beleza.

Sócrates era grande.

Da grandeza de todas as torcidas. Da grandeza de todas as Copas. Da grandeza de todos que sonham e lutam por um mundo mais justo. Da grandeza de sua razão, e também de seu coração.

No dia da sua morte, o Corinthians disputaria o título que Sócrates não conquistou. O título brasileiro. Brasileiro como o seu próprio nome.

O Corinthians é campeão! Pela quinta vez, é campeão!



A imagem de quase 40 mil torcedores, além dos 11 jogadores em campo, de punhos cerrados durante o minuto de silêncio dedicado a Sócrates, era sua própria presença. Tal como em sua época, a presença dentro e fora de campo.

Poderia dedicar mais de 6 mil caracteres para tratar do desfecho do Campeonato Brasileiro, do título do Corinthians, mas posso resumí-lo aqui: é o título de Sócrates!

Aos que ficam, cabe prosseguir sua luta.

Por um futebol, e uma sociedade, livre daqueles que tanto acumulam. Livre para pensar. Livre para se divertir. Livre para viver. Nem que seja por pouco tempo, como foi em sua própria vida.

Logo após sua primeira internação, devido à hemorragia digestiva, Sócrates lançar-se-ia a uma segunda campanha pelas Diretas. Desta vez, para a CBF!

Ele se foi, mas o sonho fica.

Sigamos com ele, assim o mantemos vivo. Assim, nos mantemos vivos.

"A Embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil une-se à dor do povo brasileiro e oferece suas condolências pela morte de quem foi um dos esportistas mais distintos do Brasil e do nosso continente, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
O Dr. Sócrates, como o povo brasileiro o chama com carinho, honrou o Brasil em todas as oportunidades que vestiu a “canarinha” e que com seu desempenho foi considerado por aficionados e especialistas como um dos melhores jogadores da história.
Lembraremos o Sócrates, mais do que por suas glórias esportivas, pela profunda convicção democrática e pela sua vocação pela unidade da Nossa América. Só horas depois de comemorarmos o nascimento da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), lembramos seu exemplo de vida porque ele sempre foi esse tipo de cidadãos que cotidianamente manteve vivo o sonho de Bolívar.
Em uma época quando muitas vezes tenta-se transformar o esporte em um espetáculo banal e alienante como ferramenta para o consumo desenfreado, Sócrates utilizou o esporte para conscientizar e promover valores como a solidariedade, e também para assumir uma postura firme em favor da democracia tanto para o país, quanto no âmbito esportivo, onde sempre a evidenciou. Sua pronta partida não permitiu que se concretizasse sua visita à Venezuela, nem sua participação em um programa de formação educativa e esportiva, que já tinha sido colocado.
A Embaixada da República Bolivariana da Venezuela deseja expressar suas máximas condolências ao povo brasileiro, a todas as pessoas que seguiram seu exemplo de luta social e especialmente a seus familiares e amigos. Tornemos o Dr. Sócrates em um exemplo de homem e mulher novo que tanto precisamos na América Latina e o Caribe."


(Nota oficial da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil, sobre o falecimento de Sócrates)






Valeu,


Bruno Porpetta