Acabo de assistir ao documentário Democracia em Preto e Branco, de Pedro Asbeg, que retrata o período onde um dos clubes mais populares do país viveu uma experiência tão singular quanto magnífica.
A Democracia Corinthiana foi um elemento importante na popularização do debate sobre a redemocratização do país, no começo da década de 80. O movimento que retirou o futebol do espectro da alienação, colocando-o a serviço da luta política.
Que bonito poder rever muita coisa tão familiar, tão relacionada à minha infância e, por que não dizer, à minha juventude.
Só a narração de Rita Lee já dá a tônica do que seria o filme. A junção, dita por Serginho Groisman, de futebol, política e rock'n roll. O que mais poderia me pertencer tanto?
Durante o filme, tentei com os meus botões fazer alguma relação com os tempos atuais. O que fazer para mudar o futebol? Para mudar a política? Para mudar o rock'n roll, que perdeu tanto da sua rebeldia?
Não se mudará um sem o outro. É preciso reconhecer, primeiramente, que aquela democracia pela qual tanta gente lutou naqueles tempos, se esgotou. Está acomodada a relações econômicas que determinam as políticas. Nossa sociedade está sentada sobre uma montanha ilusória de dinheiro.
As ruas devem se mexer, com as pessoas agindo como placas tectônicas a provocar terremotos na atual estrutura da sociedade. Só isso pode resultar na combinação explosiva que deu origem à Democracia Corinthiana. Um intelectual, um líder operário e um jovem rebelde juntos, em um clube popular, com cabelos ao vento e bola na rede.
E como era bom ver esse time jogar. Um time que marcava no campo do adversário, que jogava com beleza, apesar dos gramados horrorosos. Que a garra de Biro-Biro, vez por outra, aparecia na área para concluir. Tudo o que chamamos hoje de "moderno". Só que muito tempo a frente.
Igualmente, as ruas poderão provocar na juventude o desejo de expressão pelo rock'n roll. Não há nada mais rebelde que o rock. Esta rebeldia deverá se expressar nas letras, nos gritos, na fúria das guitarras.
Encontramos alguns dos elementos possíveis para essa ebulição. Crise, falta de representatividade dos nossos dirigentes, no governo, no Congresso, ou nos clubes. Faltam só dois detalhes.
A ausência de um inimigo nítido, que nos mobilize, além de um instrumento político capaz de organizar esta mobilização, intervir concretamente nas lutas do povo.
Enquanto isso não acontece, só me resta sentir saudade. De um tempo que não volta mais, porque nem deveria voltar mesmo.
Afinal de contas, a história se repete como farsa, depois como tragédia.
Valeu,
Bruno Porpetta
sábado, 29 de agosto de 2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Não é por vinte centavos
A arbitragem brasileira está sob protesto desde a rodada
passada do Brasileirão. Reivindicam que se revogue o veto da Presidenta Dilma
ao artigo do Profut que destinava 0,5% dos direitos de arena (grana paga pela
TV aos “atores” do espetáculo) para os árbitros e assistentes.
É legítimo que uma categoria se mobilize para reivindicar
aquilo que considera justo para si. Portanto, é bastante aceitável que
organizem ações coletivas para chamar a atenção para a questão.
Mas, supondo que uma moeda caiu entre nós, nos abaixamos e
cochichamos uns com os outros: eles merecem?
Não é de hoje que o debate acerca da profissionalização dos
árbitros e assistentes se tornou fundamental para melhorar a qualidade da
arbitragem no Brasil. Como um árbitro pode se preparar para as partidas tendo
que vender imóveis durante a semana?
Porém, nada disso mereceu até hoje atenção especial por
parte da arbitragem. Nunca antes na história desse país os árbitros moveram uma
palha pelo seu próprio direito de ter carteira assinada, férias, décimo
terceiro e, fundamentalmente, dedicação exclusiva ao ofício.
Dedicação que leva ao aprimoramento. Como os jogadores, que
treinam a semana toda para exibirem o melhor de si para a torcida. Se não
conseguem, são outros quinhentos.
Árbitro no Brasil passa a semana com a cabeça em outra
coisa, para chegar no domingo e marcar pênaltis inexistentes, não dar os
escandalosos, não ver impedimentos onde caberiam transatlânticos entre o
atacante e o penúltimo homem da defesa. Enfim, todo tipo de absurdo.
Lembram de pedir o direito de arena, mas se esquecem de
fazer uma autocrítica sobre o seu desempenho e reivindicar melhores condições
para melhorá-lo.
Hoje, não merecem nem cinco centavos.
Valeu,
Bruno Porpetta
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Castigo a galope
A demissão de treinadores no Brasil é tão corriqueira que merece
um “demissiômetro” no Largo da Carioca para contar quantos já caíram ao longo
do ano.
Este último final de semana foi exemplar dos efeitos dessa “cultura”.
O Inter foi atropelado pelo Grêmio após demitir, sem maiores explicações, o
treinador Diego Aguirre.
Ao mesmo tempo, Ricardo Gomes viu o Botafogo perder para o
Santa Cruz. Uma derrota que lhe tirou a liderança da série B, posição onde se
encontrava o alvinegro quando demitiu, sem muitas explicações, Renê Simões.
Por outro lado, Cristóvão não foi demitido do Flamengo. Mas
convive com a eterna ameaça de demissão pela imprensa e parte da torcida. A
sorte dele é que, pelo menos, a direção do clube está com ele.
O time que ataca cada vez mais a cada partida, ao mesmo
tempo em que leva gols em lances de bola parada em jogos seguidos, é passível
de críticas. Nem perto da sacanagem orquestrada contra o treinador rubro-negro.
Não à toa, ele pode dizer que é vítima de racismo.
Renê Simões perdeu o emprego após cair na Copa do Brasil para
um time da primeira divisão. À frente, por exemplo, do Vasco, campeão carioca.
Era o líder da série B, coisa que no início do ano era improvável
dizer que aconteceria. Aliás, o Botafogo era, a princípio, o patinho feio,
inclusive, do Carioca.
Diego Aguirre pecou por assumir a Libertadores como a sua competição,
largando o Brasileiro. Mas foi vítima de uma covardia por parte da direção do
Inter, que o demitiu em busca de um “fato novo”. Dito e feito, ganhou uma mão
cheia de “fatos novos”, justamente, do Grêmio.
Enfim, essa dança das cadeiras entre treinadores só serve a
empresários, que ganham comissões a cada contrato. Para o futebol, não tem a
menor serventia.
Valeu,
Bruno Porpetta
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Primavera nos dentes
Ronaldinho Gaúcho está de volta
ao futebol brasileiro. Agora é jogador do Fluminense, após passagem discreta
pelo Querétaro, do México.
O custo para o clube é
relativamente alto. O que se coloca em questão, depois de inúmeros casos de
descompromisso com a própria carreira, são os benefícios.
Sua passagem pelo Flamengo foi um
desastre. Conquistou apenas um Carioca, sem nenhum brilhantismo. Seu melhor
momento com a camisa rubro-negra foi em um jogo histórico contra o Santos, na
Vila Belmiro.
No Atlético-MG, foi da redenção
ao ocaso em curto período. Após se destacar na conquista da Libertadores em
2013, resolveu se dedicar à noite com afinco. Saiu do Galo como ídolo, embora a
torcida já não visse a hora disso acontecer.
O OUTRO LADO DA MOEDA
E não é que pode dar certo? Pare
e pense.
Do ponto de vista comercial,
qualquer solo que Ronaldinho pise é digno de nota no mundo todo. Naquele papo
de internacionalização da marca do Flu, é uma tacada de gênio da diretoria. Tão
genial quanto o futebol que ele já teve e conquistou fãs em todo o planeta.
Dentro do campo, pode ser o
último clube de Ronaldinho. Ele tem 35 anos e pode se motivar a querer encerrar
a carreira de forma, no mínimo, digna. Pode ficar alheio ao jogo por 88
minutos, mas se colocar o Fred duas vezes na cara do gol, como ele sabe muito
bem fazer, o adversário que se vire para fazer três e vencer o jogo.
Enfim, se por um lado pode
desestabilizar um time certinho que, ao contrário de todas as previsões, está
nas cabeças do Brasileirão. Por outro, pode motivar ainda mais essa molecada a
correr por ele, jogar por ele.
Algo que na cabeça dos garotos
era inimaginável fora do videogame, pode resultar em um final de ano feliz nos
gramados.
Valeu,
Bruno Porpetta
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Tortura prolongada
Faça-se a seguinte pergunta. O
que foi pior? Levar 7x1 da Alemanha em uma Copa no Brasil, ou ser eliminado
pela segunda vez consecutiva pelo Paraguai, nas quartas-de-final da Copa
América e nos pênaltis?
Independente da resposta de sua
preferência, uma coisa é certa. O futebol apresentado pela seleção brasileira é
lastimável. Consegue ser, ao mesmo tempo, feio, chato e quase inofensivo.
Para piorar, em qualquer situação
dessas, o time era uma manteiga derretida do ponto de vista emocional. Um chora
e sai correndo alucinadamente pelo campo, outro senta na bola e vira de costas,
mete a mão na bola com os olhos fechados e reclama.
Os dirigentes da CBF, que
controlam essa coisa toda com mão de ferro para não ficar sem o ouro, já deviam
ter sido todos afastados. Eles não têm nem moral, nem competência para gerir o
futebol brasileiro.
Nossos treinadores são meros
batedores de palmas na beira do campo. Treinam seus times à base do “vamos lá”.
E não abrem mão de seus “conceitos”, típicos da idade média do futebol. A
política do pulso firme acumula rotundos fracassos.
MAIS UM POUQUINHO
No entanto, o futebol brasileiro
dá poucos sinais de disposição para mudar. Os clubes são administrados como um
“ratatá” de churrasco, que compra a carne, mas pendura o carvão. Ainda tem as
federações estaduais, que são isso aí que você conhece. E a CBF, onde o
Secretário-Geral é o único a aparecer, porque ainda não foi citado em
investigação nenhuma.
O Brasileirão é tosco. Uma
imensidão de jogos deploráveis, com poucos gols e quase nenhum craque.
Não é difícil imaginar que o
resultado desse entulho dirigindo o nosso futebol seria uma sequência de micos.
A seleção brasileira é a única que nunca deixou de participar de uma Copa do
Mundo. Pelo menos, por enquanto.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
À procura do oásis
O Brasil estreou na Copa América contra o Peru sob olhares atentos da
torcida brasileira, mas em especial a do Flamengo. Afinal de contas, é o
primeiro jogo de competição desde as vergonhosas sovas sofridas contra alemães
e holandeses. Do outro lado, a mais nova atração rubro-negra, Paolo Guerrero.
Não foi preciso um olhar de especialista para saber que a seleção
brasileira é Neymar e mais 10. Sem o craque, sabe-se lá o que será de nós. O
meio-campo brasileiro ainda lembra um deserto. A criação do time é força do
acaso. A bola tem que chegar em Neymar de qualquer jeito, caso contrário, nada
acontece.
Estamos mais organizados defensivamente e David Luiz, apesar de
continuar sendo uma peça de decoração, ao menos não se larga tresloucadamente
ao ataque. Se alguém diz que o grande mérito de um treinador é convencer a um
zagueiro a jogar como zagueiro é, no mínimo, preocupante.
Do Peru, propriamente, ninguém queria saber. Desde os Incas que o país
tem pouquíssima expressão no futebol. Deveria ser mais um saco de pancadas para
o Brasil. E que ninguém venha com aquele papo de "não tem mais bobo no
futebol".
Interessava, sim, ver Paolo Guerrero, o reforço do Flamengo para o
Brasileirão, que deixou evidente que, sem um meio-campo que se preze para lhe
servir, pouco vai fazer. É um excelente atacante, embora toda essa dinheirama
que ele acha que vale é um tanto exagerada. Não dá para imaginar que ele vá
resolver os problemas ofensivos do Flamengo.
No entanto, venderá camisas, pacotes de televisão, sócios-torcedores...
E gols?
Se pintar na área, ele guarda. Mas alguém tem que fazer pintar. O oásis
no deserto que não faz falta só ao Flamengo, mas ao futebol brasileiro.
Valeu,
Bruno Porpetta
terça-feira, 9 de junho de 2015
Não toque em mim!
Poderia ser apenas uma frase de
uma música sertaneja qualquer, mas para espanto de todos e todas é a postura da
arbitragem neste Campeonato Brasileiro.
Esta coisa de jogador, treinador
e qualquer outro ser humano não poder sequer falar com o árbitro, além de soar ridículo,
é absolutamente autoritário. Digno de quem pensa o futebol da mesma forma em
que pensou o país entre 1964 e 1985.
Ver o árbitro se portando como um
Batman no alto de um prédio em Gotham
City, com o peito estufado e olhando para o horizonte, diante de um jogador ou
treinador que reclama, algumas vezes, com razão, é de doer.
Jogador expulso porque disse “não
foi falta” é uma completa ausência de bom senso. A decisão do árbitro já é
soberana por si só, sem a necessidade de imposição adicional. A reclamação é do
jogo, cabendo ao árbitro ignorá-la ou puni-la em caso de abuso.
A punição como primeiro recurso
só prejudica o jogo. A farta distribuição de cartões em uma partida amarra a
mesma. Ninguém quer se arriscar a tomar o segundo e, assim, some do jogo.
BATE, MAS NÃO FALA
Ainda há outra questão. Igualar a
reclamação à jogada violenta, além de absurdo, pode tornar a arbitragem mais
tolerante com a pancada. Diante da determinação de evitar a “rodinha” em torno
do árbitro, ao amarelar um ou outro e, ao mesmo tempo, não querer prejudicar o
espetáculo com expulsões a rodo, a tendência é que o juiz “afine” na hora da
pancada.
Resumidamente, a decisão da
Comissão de Arbitragem da CBF é absurda, equivocada e inconsequente. O que não
chega a ser uma surpresa, vindo de quem vem.
Não é de hoje, e nem só por isso,
que a CBF é um poço de equívocos. Não à toa, seus dirigentes saem do Congresso
da FIFA presos ou correndo.
Valeu,
Bruno Porpetta
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